Vila dos ingleses: revendo origens de São Paulo em 28 sobrados históricos

A Vila dos Ingleses é um aglomerado de 28 casas assobradadas do inicio do século XX localizadas na região central de São Paulo e tombadas pelo patrimônio público devido ao seu valor histórico. Os sobrados foram construídos para abrigar os engenheiros britânicos e suas famílias, que vieram para trabalhar na São Paulo Railway nas obras de remodelação da atual Estação da Luz. A vila foi construída próxima À ferrovia Santos-Jundiaí, responsável pelo transporte do valioso café até o porto de Santos.
As 28 casas assobradadas que formam a vila são geminadas e possuem características arquitetônicas com raízes no estilo isabelino e vitoriano tendo sido inspiradas nos chalés dos subúrbios londrinos, associado à influência do estilo colonial brasileiro.
Detalhe que a vila era originalmente denominada Casa Jardim Marquesa de Ytu, ficando conhecida, contudo, como Vila dos Ingleses devido à sua história.
A vila possui projeto de Germano Bresser e foi idealizada e construída durante os anos de 1915 a 1919 pelo engenheiro chileno Eduardo Aguiar D’Andrada que queria construir as casas para alugar aos funcionários ingleses da construção da Estação da Luz. Era, portanto, uma vila residencial de bom padrão, projetada para atrair os inquilinos desejados, o que a tornou diferente das habituais vilas operárias da época.
A Vila dos Ingleses possui entrada única caracterizando uma rua sem saída, típico das vilas e tem área total construída de 5.700,80 metros quadrados. O calçamento é de paralelepípedo, dando uma sensação bucólica ao passar. Todas as casas seguem um mesmo padrão, dispõem da mesma planta básica e harmônica e estão dispostas em formato de “L”.
Os sobrados surpreendem pelo bom estado de conservação e também pelo tamanho das casas, pois a fachada estreita mascara os aproximados 200 metros quadrados dos sobrados. As casas têm três andares: térreo, primeiro andar e sótão, um piso adicional na parte de cima do sobrado. Pequenas variações ficam por conta, externamente, do tipo de varanda e de fachada. Há três tipos de fachadas: dois formados por frontões, que dividem transversalmente a estrutura do telhado nos sótãos, e outro sem frontão, que separa os outros dois tipos. Internamente as diferenças ficam por conta de detalhes como a localização das escadas e dimensões do sótão, além do quintal, este descaracterizado e modificado em cada unidade. A porta de entrada das casas fica localizada em uma das laterais, todas possuem varanda coberta e distribuição idêntica das janelas no primeiro e no segundo andar. Parte do acabamento é em tijolos aparentes e os telhados inclinados conferem um charme especial.
Os sobrados geminados foram construídos em concreto armado e alvenaria, com cobertura de telhas francesas, pisos, escadarias com corrimão em peroba e teto também de madeira e foram erguidos com estrutura robusta para suportar os possíveis tremores causados pela proximidade da passagem dos trens.

As origens da Vila dos Ingleses

Antes de se tornar uma vila que abrigou os engenheiros ingleses que trabalhavam na construção da atual Estação da Luz o local onde hoje se localiza o belo grupo de casas era o jardim do palacete de propriedade de Antonia de Aguiar Barros, a já viúva Marquesa de Ytu, membro da aristocrática família paulistana Paes de Barros.
No ano de 1913 ela doou o terreno da magnífica residência à sua sobrinha-neta Eliza de Aguiar D’Andrada, casada com o engenheiro da São Paulo Railway Company, Eduardo de Aguiar D’Andrada, que veio a se tornar o idealizador e fundador da vila, erguida no espaço onde ficavam os jardins da mansão.
As gerações de Eduardo de Aguiar D’Andrada se seguiram e chegamos a seu neto, François Moreau, que no ano de 1953 recebeu de Eduardo D’Andrada a responsabilidade pela administração do local, numa época de dificuldades no local o que incluía grandes dívidas em impostos. As elites já haviam de mudado a tempo das proximidades da Luz para bairros então mais pacatos e nobres como Campos Elíseos e Higienópolis e a área que era basicamente residencial agora exibia um padrão de intenso tráfico ferroviário, agitação e ruídos.
François Moreau empreendeu então um projeto de reforma que incluía recuperação da vila e mudanças no padrão de ocupação.

Atualmente a Vila dos Ingleses ainda pertence à família Moreau, uma das ramificações da família Aguiar D’Andrada, que a preserva na figura do bisneto do idealizador Eduardo, o advogado Pierre Moreau. Ao assumir a responsabilidade pelas casas em 1986, Pierre trocou novamente os locatários, transformou a vila num centro comercial e revitalizou o espaço.
A restauração visou recuperar o que estava deteriorado nas casas mantendo, contudo, as características construtivas originais. Os interiores de vários sobrados mantêm-se intactos, com os assoalhos e escadas de madeira. Ocorreram as modificações necessárias para a adaptação das casas para fins comerciais como modernização das instalações hidráulicas, elétricas e de telefonia. Detalhe que a cor da fachada dos sobrados deve ser sempre a mesma e a tinta precisa ser feita sob encomenda.
E o próprio responsável pela vila informa que “tem um pessoal que trabalha somente para a Vila dos Ingleses na parte de manutenção há mais de 16 anos.”

As mudanças de inquilinos

Por volta de 1930, com a diminuição da utilização da mão-de-obra dos engenheiros que vinham da Inglaterra, as casas da vila passaram a ser ocupadas por famílias paulistanas.
Dentre as várias fases pela qual a Vila dos Ingleses passou, ela foi bombardeada durante a Revolução Paulista de 1932. Na década de 1950 o local abrigou pensionatos católicos, clubes de funcionários federais e uma classe média intelectualizada composta por estudantes das universidades das redondezas e artistas além de profissionais liberais.
O lugar sofreu então degradação progressiva até a década de 70, quando o entorno da antiga rodoviária, próxima dali, passou a abrigar migrantes atraídos pelo crescimento econômico, que se hospedavam em pequenos hotéis e pensões das redondezas. Não era mais um bairro residencial das elites. As casas viraram cortiços onde moravam até 20 pessoas por unidade. Nos arredores surgiu o comércio atacadista, uma estação rodoviária e foi implantado um presídio e ainda surgiram moradores de rua.
Por fim, na década de 1980 os descendentes do construtor, liderados pelo engenheiro Pierre Moreau, conduziram a revitalização da vila e passaram a alugar os imóveis para fins comerciais dede 1988.

A Vila dos Ingleses do século XXI

A Vila dos Ingleses do século XXI é um patrimônio tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Turístico), o que impede mudanças nas fachadas das casas e faz com que possamos admirar esse cantinho da história do modo como foi construído.
Fui conhecê-la num sábado e não tive qualquer dificuldade para entrar. Se for de automóvel, não é permitida a entrada na vila, porém há espaço na Rua Mauá para estacionar. É uma viagem no tempo única e inesperada tendo em vista esse espaço tão bem conservado, seguro e tranqüilo no meio de um centro da cidade por vezes degradado, sujo e de certo modo assustador devido às pessoas em situação de rua e usuários de entorpecentes. A visita é seguramente gratificante e então, por que não almoçar no único restaurante da vila para prolongar a sensação do clima do local?

Endereço: Rua Mauá, 836, bairro da Luz.
Estação de Metrô: Luz

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