Um pouco de Mata Atlântica dentro da cidade num parque diferente: Parque Burle Marx

A Mata Atlântica é uma das mais importantes florestas tropicais do mundo, apresenta rica biodiversidade e corresponde a uma estreita faixa de florestas ao longo da costa brasileira. Infelizmente está em processo paulatino de extinção por motivos vários, desde a extração de madeira séculos atrás até os conhecidos desmatamentos irregulares, construção de rodovias, poluição ambiental e a impiedosa especulação imobiliária.

Dentro de São Paulo, contudo, ainda é possível ver como era a vegetação da cidade antes da colonização e urbanização e um dos poucos locais para isso é o Parque Municipal Burle Marx.

O Parque Burle Marx, um dos parques da região sul de São Paulo, está localizado no criado bairro do Panamby, distrito de Vila Andrade, próximo à nobre região do Morumbi. É caracterizado como um “parque de lazer contemplativo” com resquícios de vegetação arbórea de grande porte, remanescente de mata nativa secundária em estágio avançado de recuperação. Este parque é totalmente voltado para a aproximação da população com a natureza, proporcionando agradáveis passeios por entre a vegetação de espécies remanescentes da Mata Atlântica. Possui como destaque os jardins projetados pelo mais proeminente paisagista brasileiro, Roberto Burle Marx.

O Parque teve um início diferente

Na região onde hoje existe o Parque, havia uma vasta área de Mata Atlântica com o nome de Chácara Tangará, que foi criada a partir de sucessivas aquisições de sítios e chácaras realizadas pelo industrial e assim chamado playboy internacional Francesco Matarazzo Pignatari, o Baby Pignatari, neto do Conde Matarazzo.

Em meados de 1950, Pignata­ri iniciou a construção de uma paradisíaca residência para sua segunda esposa, toda circundada por lagos, pomar, jardins e áreas florestadas. A residência, localizada na parte mais alta do terreno, foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e os jardins pelo talentoso Burle Marx. Esta obra nunca chegou a ser concluída, pois em 1957 ocorreu o divórcio e a vida de Pignatari tomou outros rumos.

Após mais de três décadas abandonada por questões judiciais, a propriedade como um todo, foi vendida e loteada.O local, nobre em localização e vegetação nativa, despertou grandes embates entre sociedades civis, empreiteiras de projetos imobiliários e a administração pública, culminando com 28,7% daquela área pertencente à municipalidade.

O Parque foi criado, em 1986. A casa inacabada foi demolida na década de 1990 e as obras do jardim lateral que já haviam sido realizadas e incorporadas ao Parque quando este foi criado, além de terem sido preservadas, foram concluídas pelo próprio Burle Marx em 1991. O demais terreno deu origem ao Projeto Urbanístico Panamby, no momento com empreendimentos apenas residenciais de alto padrão.

Há ainda, conforme pode ser visto nas fotos, o inacabado Palácio Tangará Hotel e Spa, obra majestosa de 27 mil metros quadrados que se propunha a ser o primeiro hotel de seis estrelas em São Paulo, e que está circundada por espécies raras de vegetação nativa. A obra está paralisada desde 2001 e não é possível visitá-la.

Outro detalhe que torna esse parque diferente é quanto à sua gestão, pois é o único parque público com gestão privada, a cargo da organização sem fins lucrativos Fundação Aaron Birmann, que o administra com recursos advindos de eventos, comercialização de produtos, projetos e doações.

Visitando o Parque Burle Marx

Sua localização é privilegiada e de fácil acesso, mas apenas rodoviário, por ficar à margem esquerda da Avenida Marginal do Rio Pinheiros e esse é um dos motivos pelos quais o jovem Parque Burle Marx não é muito conhecido pelos paulistanos. A sinalização da entrada, contudo, é discreta e facilmente pode conduzir o visitante à rua que o circunda, tendo que dar a volta. Ultrapassando a pequena estrada de pedras e terra batida chega-se à guarita do estacionamento, que é pago e já avisado no site do próprio parque. Fui, contudo, num sábado à tarde e ela estava fechada.

O local é muito bonito e logo na entrada já podemos imaginar que teremos muito para visitar. São 138.279 metros quadrados de área entre as distintas e tão programadas partes que o compõe, conforme a cartilha do próprio parque.

O principal atrativo do parque é a vegetação, que é composta por espécies nativas de Mata Atlântica como Copaíba, Pau-Brasil, Pau-Ferro e Palmito Jussara, parte de reflorestamento com eucaliptos e mais de 50 espécies de plantas introduzidas por Burle Marx para o paisagismo dos canteiros e jardins.

A fauna é considerada diversificada, mas pouco posso contar, pois pouco puder observar dela.

Gramado Central

Na entrada há o atrativo Gramado Central, com playground com alguns brinquedos e o Bosque das Jabuticabeiras ao fundo. O gramado amplo e muito bem cuidado justifica a característica difundida de “parque de lazer contemplativo”, permitindo o descanso, leitura e a admiração da natureza. Quando fui haviam poucas pessoas, divididas entre algumas crianças, adultos deitados no gramado e menos de uma dúzia de corredores ou caminhantes pela mata.

O maior atrativo do espaço infantil é o Casulão, grande tronco de árvore deitado e muito bem cuidado, parcialmente envolto por uma rede, que foi adaptado para as crianças tentarem andar e se equilibrar por toda a sua extensão.

Jardim Burle Marx

O Jardim Burle Marx, embora não seja de grandes proporções, é uma atração à parte, pela originalidade e beleza de suas estruturas. Ao fundo dele, como que emoldurado por 15 palmeiras imperiais, há um grande painel com esculturas geométricas em altos e baixos relevos e espelhos d’água. O estado de conservação é regular e a cor e espuma da água não eram convidativas, como pode ser visto nas fotos.

Há também o Gramado Xadrez, que é um pequeno e bonito jardim em duas tonalidades de verde proporcionando o aspecto quadriculado de um tabuleiro de xadrez que pode ser visto na foto e, obviamente, não pode ser pisado. Mais ao lado há um pergolado em madeira que convida à observação demorada.

O conjunto constituído pelas palmeiras imperiais, canteiros e jardins, Espelho d’água, Gramado Xadrez, área do Pergolado e os dois painéis escultóricos em concreto, forma a obra paisagística e arquitetônica de Roberto Burle Marx, agora tombada pelo Patrimônio Histórico-Cultural.

Descendo as escadarias do Jardim Burle Marx encontra-se a sede da administração do parque e logo começa a entrada para as trilhas.

As trilhas e região dos lagos

As trilhas para caminhada e jogging no interior da mata são o maior atrativo do parque, permitindo experiências de contato com a natureza e conscientização ecológica. O parque dispõe de três trilhas: a Trilha “A – dos Lagos” tem 350 metros, a Trilha “B – da nascente”, 850 metros e a Trilha “C – dos macacos”, 1060 metros, com níveis progressivos de dificuldade.

Os caminhos circundam os lagos vão se estreitando à medida que a mata fica mais fechada. Um detalhe, contudo, vou descrever, pois chamou muito minha atenção. É a obra do artista plástico José Spaniol chamada O Descanso da Sala, localizada no lago menor.

A uma altura de aproximadamente 7 metros, veremos o que seria uma sala ou um quarto pendurados de cabeça para baixo. Uma estrutura de metal sustenta o conjunto: uma cama, uma mesa, uma escada e duas cadeiras. Fixados no topo dessa armação, os objetos são refletidos sobre um espelho de água, dessa maneira projetados contra o céu. Mediante esse artifício, recuperam sua posição natural. O trabalho estrutura-se por esse eixo entre terra e céu, num movimento vertical de aproximação entre opostos.

A nitidez da imagem é incrível, parecendo que os móveis estão no fundo do lago, como que mergulhados, como se essa fosse a verdadeira imagem e não a que está no alto.

Nas fotos pode-se observar um pouco do que é a floresta. A Mata Atlântica pode ser descrita como que ocorrendo em camadas, e as mais rasteiras são as que conseguimos fotografar com mais facilidade. Vimos variedade de belas espécies vegetais, sendo algumas existentes apenas neste ecossistema. Podem ser observadas árvores com altos e lisos trocos que abrem suas copas lá no alto e fornecem o aspecto de camada única de vegetação vista nas fotos aéreas.

Há outra camada de vegetação, mais baixa, chamada de sub-bosque, onde se observam plantas menores e pequenas árvores tais como bambus, samambaias gigantes, líquens e outras espécies, que toleram menos quantidade de luz. Esta parte necessita de menos luz, sendo o habitat de muitas aves. Em minha caminhada encontrei um bando de jacutingas que levantaram voo com os passos, mas não fotografei, pois me assustei pensando que poderiam ser urubus!

Detalhe especial fica por conta da Palmeira-Juçara. A Mata Atlântica é a reserva natural dessa espécie, que produz o palmito-juçara. De forma diferença das demais palmeiras que produzem palmito, a espécie juçara tem o crescimento muito mais lento e cada uma constitui um único tronco, enquanto as demais formam touceiras. Assim, ao se extrair o palmito, a palmeira juçara é cortada e sacrificada, enquanto as outras, pupunha e açaí, possuem ramos que brotam do tronco principal. É por este motivo que ela encontra-se ameaçada de extinção e que devemos admirá-la enquanto existe. A preservação da palmeira- juçara está diretamente ligada à manutenção da biodiversidade da Mata Atlântica pois suas semente e frutos servem de alimento para diversos animais silvestres.

Voltado ao nosso passeio, a luminosidade é menor no interior da mata, e a camada mais inferior da vegetação, inclusive, possui espécies com folhas maiores, para aumentar a superfície de captação de luz. Ali vivem também inúmeras espécies de fungos e animais rasteiros.

À medida que fui entrando e subindo na mata, pois o terreno é elevado, vivi uma sensação interessante. Parecia que estava anoitecendo, o que não estava ainda e de repente não havia outros grupos por perto para indicar por qual trilha era a saída. O estranhamento de poder se perder ao escurecer não deixou de ser uma pequena e inocente aventura, que foi interrompida pelo apito do vigia do parque, que avisava os frequentadores sobre o fechamento do local.

Cabe ressaltar que achei as trilhas muito pouco sinalizadas bem como não localizei a bica, embora tenha subido toda a mata. Mais tarde um segurança do local informou que ela é pequena e está muito escondida e que a água não é potável!

Das normas e atividades extras do parque

Por ser um parque com opção de lazer contemplativo e de proteção da fauna e flora, há normas rígidas que determinam suas condições de uso. É vedado a prática de qualquer atividade esportiva (incluindo o uso de bicicletas, bolas, patins, patinetes, skates, pipas, etc.), à exceção de caminhadas; a entrada de vendedores, camelôs e ambulantes, pessoas alcoolizadas ou que agridam a moral e os bons costumes; a entrada de animais; colher flores, mudas ou plantas; subir ou escrever em árvores; lançar galhos, detritos ou qualquer objeto nos cursos d’água; caçar e pescar; usar churrasqueiras ou fogueiras; molestar ou alimentar indevidamente os animais do Parque; montar barracas ou acampamentos; importunar, de qualquer forma, os demais usuários do Parque; usar alto-falantes ou aparelhos para amplificação de som; operar miniaturas de veículos, barcos ou aeroplanos de modelismo; distribuir material publicitário; comercializar bebidas alcoólicas; fazer pic-nic; realizar eventos com finalidades políticas ou religiosas. A alimentação não pode ser feita nas áreas gramadas do Burle Marx, apenas na região da lanchonete local.

… e o que pode?

Para crianças até 5 anos de idade será permitido o uso moderado de bicicletas (até aro 16), patins, patinetes; apenas para bebês e crianças pequenas, será permitido o uso de bolas leves. Pode CONTEMPLAR, enquanto ainda existir resquícios de Mata Atlântica!

O parque oferece também atividades monitoradas e gratuitas como dança, aquarela, pilates, yoga, tai chi chuan, em datas e horários pré-determinados.

Pode-se também pensar, com base em sua história, se as normas de utilização do Parque o tornam adicionalmente uma reserva de valor, para se manter como um cartão postal intato para a venda de imóveis ao seu redor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *