Prédios históricos de São Paulo – Palacete Tereza Toledo Lara restaurado

Dentre as antigas construções do Centro Histórico de São Paulo destaca-se este majestoso edifício construído em 1910, o Palacete Tereza Toledo Lara.
O Palacete Tereza Toledo Lara é um dos raros edifícios de estilo eclético do início do século XX em São Paulo que ainda possuem suas características arquitetônicas quase que integralmente preservadas. Com grande interesse histórico-arquitetônico, o Palacete Tereza Toledo Lara, também conhecido como “Antiga Rádio Record”, está situado no assim chamado Triângulo Histórico da cidade de São Paulo, numa de suas esquinas mais antigas a esquina da Rua Direita com Rua Quintino Bocaiúva. Essa região correspondia à antiga cidade da época e o restante eram chácaras ou pequenas aglomerações habitacionais. Com ruas estreitas logo se transformou em passeio de pedestres, como é até hoje.
A respeito do conhecido Triângulo Histórico, ele se refere ao caminho delimitado pelas três principais ruas que existiam desde o embrião da fundação da cidade e que marcaram o começo do agora Centro Velho de São Paulo, correspondendo à planta imperial de São Paulo de 1810. Os vértices desse triângulo são demarcados pela localização de três conventos existentes desde a São Paulo antiga, no Largo de São Bento, Largo de São Francisco e Praça da Sé.
O Palacete ainda é referência histórica como a “esquina musical de São Paulo”, uma vez que abrigou por longo período, desde a década de 1940, as instalações da rádio Record, emissora que teve grande influência artística e política nos tempos áureos do rádio no país e a que apresentava a maior audiência. A emissora contava inclusive com auditório onde acontecia um famoso programa de calouros. Foi nessa época o período mais expressivo do radio no Brasil.
Ao longo de sua história o local abrigou ainda lojas de instrumentos musicais e também das muito procuradas partituras como a duradoura Casa Bevilacqua, fundada pelo maestro italiano Isidoro Bevilacqua. A loja permaneceu nesse endereço por noventa anos. A seguir cedeu seu espaço para a editora de música Irmãos Vitale até o ano de 2009. O comércio musical ainda reside no mesmo espaço até hoje, agora sob o comando da Casa Amadeus Musical, fundada por ex-funcionários das duas casas anteriores.

Sobre a construção do Palacete Tereza Toledo Lara e sua arquitetura

O Palacete Tereza Toledo Lara pertence desde que foi projetado em 1910, à família de Antônio de Toledo Lara, o “Conde de Lara”, empresário do ramo do café, investidor imobiliário, um dos fundadores da companhia de bebidas Antarctica e também conhecido por ser um dos financiadores da restauração da Catedral da Sé.
A história de sua construção remonta a um tempo em que essa região possuía as mais refinadas lojas, livrarias e cafés, moradias de ricos produtores cafeeiros, agitada vida cultural e também detinha o agitado centro comercial da cidade, especialmente na Rua Direita. O conde comprou o sobrado que existia na esquina da Rua Direita da irmã do Barão de Itapetininga, adquirindo a seguir outros sobrados vizinhos que existiam na Rua Quintino Bocaiúva para, a seguir encomendar a construção do palacete. Para o projeto chamou o arquiteto August Fried, alemão que executou diversas obras na cidade de São Paulo como o projeto do primeiro casarão da Avenida Paulista.
Com localização privilegiada e fachadas voltadas para as ruas Direita, Quintino Bocaiúva e José Bonifácio, o palacete inicialmente foi edifício de escritórios muito disputado por advogados, médicos e cirurgiões dentistas e possuía várias lojas no piso térreo, tendo sido construído já com propósitos comerciais. De forma diferente do que o termo “palacete” sugere, nunca foi um local residencial.
Sobre as características construtivas e arquitetônicas, o Palacete Tereza Toledo Lara conta com três pavimentos e um porão. Com forte inspiração européia, sua construção possui linguagem eclética formando uma composição complexa da união dos estilos renascentista, barroco, neoclássico e maneirista italiano dos anos 1500-1600.
A fachada possui sobrecarga ornamental com belos e abundantes detalhes como máscaras, carrancas, estátuas, guirlandas, figuras alegóricas e encimada por pináculos e medalhões. É possível notar também a assinatura de seu arquiteto gravada na própria fachada, costume europeu da época.
No interior da construção a beleza se mantém, com grandes vitrais coloridos, escadaria em forma de caracol, grandes e numerosas janelas, fabulosos pisos hidráulicos e um elevador pantográfico, cuja estrutura externa foi preservada no restauro.
Detalhe que o nome do Palacete foi uma homenagem do conde à sua filha Tereza, então com sete anos de idade.

O restauro

Após o auge em desenvolvimento da região agora denominada Centro Velho, quando lá as construções se mostravam cada vez mais elaboradas recebendo até os primeiros prédios na década de 1920, a cidade se expandiu e essa região passou por um período de deterioração até as décadas de 1980-90.
Por longo tempo muitas camadas de tinta esconderam o granito da fachada do Palacete Tereza Toledo Lara bem como propagandas de todos os tipos e dimensões impediram a admiração dessa construção, que já não possuía mais a devida conservação.
O Palacete Tereza Toledo Lara, tombado pelo Patrimônio Municipal, enquadra-se na zona de proteção definida pelo Programa de preservação de bens culturais arquitetônicos da área Central de São Paulo, como prédio classificável como P1, devendo ser totalmente conservado, tanto interna quanto externamente. Detalhe que neste programa o edifício é denominado “Antiga Rádio Record”.
E assim a atual proprietária, Tereza Artigas Lara Leite Ribeiro, bisneta do conde Antônio de Toledo Lara custeou e acompanhou de perto uma grande “aventura” restaurando e revitalizando o Palacete.
Levantamento minucioso no início do restauro mostrou que o palacete mantinha suas características originais preservadas, porém como conjunto perdera sua unidade, pois no pavimento térreo cada loja pôde intervir em seu trecho de fachada a seu modo.
Além disso, alguns problemas surgiram nos materiais, como na fachada, onde a parte inferior em granito estava totalmente pintada, havia muitos fios e tubulações aparentes, sujidade intensa, manchas de umidade, depósitos nas superfícies de revestimento, obturações com materiais diferentes dos originais, além de pichações. Partes de alguns elementos decorativos externos estavam faltando, como a ponta de alguns pináculos.
Desde o cuidadoso estudo preliminar, a ideia do projeto de restauro seria resgatar a vocação musical que o edifício possui. Quanto à obra propriamente dita, nas fachadas o esforço maior se concentrou em buscar trazer de volta a unidade do edifício além da reforma do telhado.
Partes quebradas das estátuas das cinco figuras humanas das platibandas do palacete foram recuperadas. Detalhe para a manutenção do monograma do primeiro proprietário acima da figura feminina que sustenta o arco de luzes.
No piso térreo quase nada foi modificado, ocorrendo uma reestruturação das áreas molhadas das lojas da fachada nordeste, sendo possível liberar mais espaço para o fosso de ventilação. A caixa do elevador de origem francesa foi trocada, mantendo-se a porta pantográfica com grade manual original, além da modernização da parte elétrica e hidráulica. O piso em ladrilho hidráulico estava desgastado embora bem conservado, contudo partes quebradas haviam sido preenchidas por outros materiais de baixa qualidade. Os pisos em madeira estavam mais deteriorados, com problemas nos encaixes, partes quebradas e descaracterizadas.
O primeiro pavimento foi chamado o andar musical. Para este piso foram reestruturadas as áreas molhadas com criação de banheiros e vestiários. Uma grande sala continuou reservada para a loja de música Amadeus Musical e a sala da outra face do piso veio a cumprir o objetivo musical abrigando desde fevereiro de 2017 a Casa de Francisca, considerada a menor casa de shows de São Paulo. A casa trouxe iluminação e vida noturna ao edifício, sendo muito procurada. As belas janelas se abrem e permitem ventilação natural ao ambiente. Durante o dia o espaço abre seu concorrido restaurante e permite comunicação visual com a Casa Amadeu.
O segundo pavimento foi destinado para ser o andar de escritórios. Nele, os banheiros também foram reestruturados e foi proposta uma pequena área de descanso. Atualmente funcionam os escritórios da Casa de Francisca.

Durante a 2ª edição da Jornada do Patrimônio promovida pela Secretaria Municipal de Cultura por meio do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) em 2016, no projeto “Imóveis de Portas Abertas” pude visitar o processo de restauração que estava em andamento no Palacete, cujas fotos podem ser vistas neste post.

Fonte consultada

As informações fornecidas na visita guiada durante a 2ª edição da Jornada do Patrimônio estimularam o aprofundamento no conhecimento da história desse belíssimo edifício.
O projeto com o nome de “Restauro do Palacete Lara” foi objeto de trabalho final de graduação de Mariana Cavalcanti Pessoa Tonasso, sob orientação de Beatriz Mugayar Kühl, apresentado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), e forneceu a maioria dos detalhes deste post.

O Palacete Tereza Toledo Lara, restaurado e novamente majestoso promoveu a convivência do passado com o presente ao misturar a conservação da história da cidade com a modernidade de seus frequentadores e agora ilumina dia e noite o tradicional ponto do velho centro de São Paulo.

Localização: Palacete Tereza Toledo Lara, Rua Quintino Bocaiúva, 22, Sé

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