Oca e o mural esquecido de Manuel Lapa: memórias da Exposição de História de São Paulo no quadro da história do Brasil

Uma parede falsa removida para a instalação de exposição na Oca no Parque Ibirapuera em 2015 mostrou uma obra de arte esquecida em São Paulo. Sim, a cidade ainda guarda surpresas. Um grande mural sobre o tema da primeira missa de São Paulo estava encoberto por uma parede de gesso que havia sido colocada no subsolo da Oca, quinze anos antes deste acontecimento.

O pavilhão expositivo Lucas Nogueira Garcez, popularmente chamado de Oca devido ao seu formato semelhante às habitações indígenas, é uma das construções que integram o Parque Ibirapuera, que foi inaugurado em 1954 como parte das comemorações pelo IV Centenário de São Paulo. A Oca foi projetada em 1951 por Oscar Niemeyer e o edifício possui 10mil metros quadrados de área construída em concreto armado distribuídos entre quatro pisos e rampas curvas. A partir de 1960 o prédio abrigou os Museus da Aeronáutica e do Folclore e foi reformado após 14 anos sem atividade. Enfim, em 28 de fevereiro de 2000 a Oca foi reinaugurada e voltou a ser sede de exposições e instalações temporárias, com novas equipes e projetos. Mudanças também ocorreram na área administrativa sendo que desde 2010 a sua gestão passou para o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal da Cultura. Faz parte dos edifícios históricos do Museu da Cidade, sendo protegido pelo Patrimônio Cultural nas três esferas.
Detalhe que o nome da Oca em sua planta era Palácio das Artes, sendo inaugurada como Palácio das Exposições.

Como foi descoberto o mural esquecido?

Durante a montagem da exposição “Modernidades Sobrepostas”, em 2014, uma pessoa da equipe de montadores alertou a direção da Oca que uma parede falsa no subsolo encobria um painel. Essa mesma montadora estava lá quando encobriram o mural quinze anos antes. Logo uma equipe de historiadores de arte do Museu da Cidade se preparou para iniciar o trabalho de busca e investigação de autoria da obra referida e em 2015 já era possível ver publicamente um pouco da pintura através de uma fresta que havia sido aberta. O que seria? Parecia parte da batina de um padre e tinha algo como uma faixa vermelha atrás.

Apenas uma informação no momento certo e São Paulo têm agora o registro completo da primeira exposição da Oca, em 1954. Por quinze anos uma divisória branca de gesso encobriu uma importante e histórica obra de arte que integrava o conjunto de pinturas realizado exclusivamente para a exposição que marcou a inauguração da Oca em 1954, intitulada “Exposição de História de São Paulo no quadro da história do Brasil”. Na verdade a obra havia sido esquecida desde a década de 50 e apresentava muitas manchas de umidade e fungos precisariam ser removidas. Patrocínio de um banco privado para o delicado restauro, mais pesquisas e, por fim, a descoberta da obra. Mural de Manuel Lapa sobre a Primeira Missa em 25-janeiro-1554. Seria a imagem do Pe. Manuel de Paiva rezando a missa de conversão do apóstolo que deu nome à cidade. O ato fundador de São Paulo ficaria registrado numa parede da Oca e poderia ser comparado com o descobrimento da cidade moderna 400 anos depois.
A retirada total da parede falsa está praticamente concluída neste momento, novembro de 2017, quase um ano depois da previsão inicialmente divulgada. Primeiro foi aberta uma fresta e agora já temos a emocionante visão da arte de 1950 gravada definitivamente numa parede da Oca. É um grande mural com altura estimada em 3 metros.

A Oca ainda possui quatro dos painéis expostos na mostra de 1954. Os painéis, contudo foram produzidos em placas soltas de compensados de madeira de má qualidade para serem desmontados e utilizaram tintas industriais e como o processo de remontagem ocorreu várias vezes, no momento deste post eles estão em restauro. Esses painéis tinham como autores os brasileiros Clóvis Graciano, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Manuel Lapa, de nacionalidade portuguesa.
O detalhe é que, dentre todos os painéis produzidos para a exposição inaugural, o único que foi pintado diretamente sobre uma parede de concreto do pavilhão, um mural, foi o recém encontrado, de Manuel Lapa. Lapa foi também um dos artistas que ajudaram no planejamento da montagem da exposição e mesmo assim é referido que não foram encontrados registros visuais desse painel representante do muralismo da época por todo esse tempo.

Exposição de História de São Paulo no quadro da história do Brasil

A fim de contextualizar a importância do mural descoberto, vamos dizer o que foi essa exposição. No ano de 1954, grande festejos comemoraram o IV Centenário da cidade de São Paulo, para os quais foi criada uma comissão organizadora que tinha como presidente o industrial e mecenas ítalo-brasileiro Francisco Matarazzo Sobrinho. A população ainda era pequena, porém a maior dentre todas as capitais do país e nessa época São Paulo buscava mostrar seu potencial como capital cultural e símbolo do progresso nacional.
Dentro do Parque Ibirapuera, próximo à sua entrada encontrava-se a imponente construção de Oscar Niemeyer em forma de cúpula, a Oca, então Palácio das Exposições, que seria inaugurada também como parte das comemorações. Matarazzo convidou o intelectual português Jaime Cortesão para ser o curador, que então reuniu renomados nomes para compor a equipe organizadora.
A bem sucedida exposição, que teve a inauguração solene em 13 de setembro de 1954, foi abrangente e detalhou de maneira inédita em mapas e cartas originais, obras de arte e painéis com textos e pinturas encomendadas, os quatro séculos da história de São Paulo e sua importância dentro da história do Brasil.

Pela raridade de documentação acessível conto aqui como foi a distribuição dos temas entre as nove seções que compunham a exposição “História de São Paulo no quadro da história do Brasil” e onde se encaixa o mural encontrado de Manuel Lapa.
A mostra seguia uma seqüência que abrangia desde a época do descobrimento até o momento atual, 400 anos depois, com os seguintes temas:
Seção I: O descobrimento dos litorais. Nessa seção estava exposto o painel de Manuel Lapa “Partida das naus do Rastelo” e a “chegada das naus ao Brasil”.
Seção II: A cultura do índio e do adventício
Seção III: A fundação de São Paulo e o pré-bandeirismo. É nesta parte da exposição que se encontrava o mural esquecido sobre a primeira missa de Manuel Lapa.
Seção IV: Bandeiras e Bandeirantes
Seção V: A capitania de São Paulo e a expansão mineradora. Nesta seção estava o segundo dos quatro painéis referidos acima, representando a Mineração em um rio de montanha, de Clóvis Graciano.
Seção VI: São Paulo e a formação dos limites do Brasil. Esta seção era encerrada pelo painel de Tarsila do Amaral que representava uma procissão de Corpus Christi na São Paulo de meados de 1700. A obra chama-se “Procissão”.
Seção VII: São Paulo e a independência do Brasil
Seção VIII: São Paulo no Império. Aqui estava exposto o quarto dos “painéis da Oca” expostos em algumas ocasiões, que mostrava a lavoura cafeeira e tem o nome “Fazenda de café”, de Di Cavalcanti.
Seção IX: São Paulo na República. Aqui o ponto de partida era o ano de 1889.
As primeiras seis seções da Exposição “História de São Paulo no quadro da história do Brasil” tiveram a organização direta de Jaime Cortesão. A partir da seção VII, quando a história nacional se separava mais dos vínculos com Portugal, Cortesão deixou a cargo de sua equipe.
Estas informações foram obtidas com base na literatura oferecida por uma gentil e dedicada monitora da Oca, à presto meus agradecimentos.

E por que isso ocorreu?

Foram muitos nomes para o mesmo prédio, mudanças temporárias na disposição do espaço, reformas na estrutura interna da Oca, várias administrações não conectadas e falta de registros do mural que agora não será mais esquecido. O mural de Manuel Lapa pode ser visto e fotografado durante os horários de funcionamento do Pavilhão por tras de uma vitrine de vidro especialmente concebida para protege-lo. Quando os restauros do mural e dos painéis estiverem prontos é prometido um encontro entre eles numa exposição em seu local de origem, seguramente muito aguardada e que este blog se compromete a avisar.

Onde:

Pavilhão Lucas Nogueira Garcez – Oca
Horário de funcionamento: de terça a domindo, das 9h às 17h.
End.: Parque Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 3 (entrada de carro) ou Portão 1 (entrada de pedestres) no momento.
Vila Mariana – zona Sul – São Paulo.
Tel.: (11) 5082-1777

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