O centenário de Lina Bo Bardi e a Casa de Vidro

A cidade de São Paulo foi fundada em 1554, há 460 anos, e aos poucos é possível observar uma preocupação com a preservação de vários marcos de sua curta história.

O motivo desta reflexão refere-se hoje à Casa de Vidro, um marco na arquitetura modernista brasileira, agora tombada, bem como a mata que a cerca, como patrimônio histórico pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) e pelo IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A carinhosamente chamada Casa de Vidro foi criada em 1951 como residência de sua criadora, a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi e o marido Pietro Maria Bardi, e planejada também para ser atelier e ponto de encontro de artistas. Hoje abriga a sede do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi.

Lina Bo Bardi completaria 100 anos agora, em dezembro de 2014, e neste post queiro deixar minha homenagem na forma de um pouco de sua história.

Um pouco da biografia de Lina Bo Bardi

Achillina Bo nasceu em Roma, em 05 de dezembro de 1914, de uma tradicional família italiana. Após graduar-se em arquitetura foi para a cidade de Milão em busca de progresso profissional e cultural, colaborando com reportagens e ilustrações para tradicionais revistas da área. Era época da II Guerra Mundial e dentre as dificuldades vividas, seu escritório foi destruído por um bombardeio.

Na década de 1940, enquanto a Europa em reconstrução vivia o difícil período de pós-guerra, inclusive com coleções de obras de arte sendo postas à venda, o Brasil, especialmente São Paulo, vivia um período de grande efervescência no plano econômico e político, com o desenvolvimento industrial gerando condições para o crescimento urbano e cultural. Nessa época, o paraibano Assis Chateaubriand era o proprietário dos Diários Associados, o maior grupo de veículos de comunicação do Brasil. Por ser grande admirador de arte, um de seus projetos objetivava a criação em São Paulo de um museu de nível internacional, e como era leigo no assunto precisou do auxílio de alguém experiente da área. Convidou então o jornalista, crítico, colecionador e negociador de arte italiano Pietro Maria Bardi, marido de Lina, para ajudá-lo a fundar e dirigir o futuro museu.

E foi assim que Lina, sem possibilidade de criação pela própria situação política e econômica da Itália na época, veio para o Brasil em 1946, junto com o marido, que aceitara o convite recebido. Lina dizia que a Itália era um país de desconstrução.

Ao chegar ao Brasil Lina encontrou e admirou-se por um país com cultura em formação, cheio de possibilidades para trabalho e inovações. As artes começavam a tomar corpo, e Lina, aos poucos, engajou-se com os grandes nomes da produção artística, encantando-se também com a arte regional nordestina, que muito influenciou suas criações. Lina e Pietro residiram no Rio de Janeiro durante um ano, e a seguir se mudaram para São Paulo.

Em 1951 Lina construiu seu primeiro projeto, a bela e modernista Casa de Vidro no então longínquo bairro do Morumbi, que seria a residência dos Bardi até o final de suas vidas. Lina faleceu em 20 de março 1992, aos 77 anos. Ainda sobre sua trajetória, doze anos após a chegada ao Brasil, em 1958, já residindo em sua casa do Morumbi, transferiu-se temporariamente para a Bahia a convite da Universidade de Salvador para lecionar.

Além de sua residência, marco arquitetônico de São Paulo, Lina criou um imponente projeto para o museu sonhado por Chateaubriand. Ele se concretizaria como o MASP (Museu de Arte de São Paulo) e teria sua sede definitiva inaugurada em 1968, tornando-se a obra mais importante de Lina Bo Bardi.

O que e como é a Casa de Vidro?

Na década de 50 a região do Morumbi era ocupada por uma imensa fazenda de plantação de chá e após seu loteamento, Lina e Pietro Bardi compraram os três primeiros lotes da região. Lá, Lina conseguiu por fim levar ao cabo seu primeiro projeto, construindo a primeira residência do bairro e moradia do casal: a Casa de Vidro.

A casa tem um formato horizontal e foi concebida basicamente em dois blocos de concreto armado. O primeiro está suspenso por finas colunas de aço que vão até dentro da casa e foi construído ao redor da uma falsa seringueira. Fui informada pela guia da visita que as colunas desproporcionalmente finas, de 17 cm de diâmetro, não poderiam ser aprovadas atualmente para uma construção semelhante. Esse primeiro bloco que parece flutuar na mata, abrigava a parte social da casa. A característica que o destaca é que tem três faces completamente envidraçadas, que permitiam a entrada de luz natural e a observação da paisagem e vegetação externa de qualquer ângulo, o que deu origem ao nome Casa de Vidro.

O segundo bloco da casa, na parte posterior do terreno, forma um bloco maciço de alvenaria totalmente apoiado no terreno, com relativamente poucas e pequenas janelas. Esta parte era destinada aos serviços e dormitórios. A área externa é vasta e descreverei a seguir.

A visita à Casa de Vidro

Há pouco mais de dois meses agendei um horário para a visita guiada à Casa de Vidro. A casa estava sendo preparada para a exposição Mobiliário de Lina Bo Bardi – Tempos Pioneiros como parte das comemorações do centenário de nascimento de Lina. A Casa situa a sede do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi e abriga parte da coleção de arte adquirida pelo casal ao longo de suas vidas. O local conserva o mobiliário original, em grande parte criado pela arquiteta e também recebe vários eventos e exposições.

O terreno adquirido para a construção da casa possuía 7.000 m² e era um descampado com uma única árvore, uma falsa seringueira, existente até hoje. Ao redor dela Lina construiu a casa e, no terreno, refez a reserva de mata atlântica, pois a mata primária original do local já não existia. Atualmente são 900 as árvores catalogadas.

Para entrar no terreno precisei tocar uma campainha e após me identificar pelo interfone o portão verde se abriu, já permitindo uma vista privilegiada da mata. Após subir uma inclinada rampa com acabamento de pedras e cacos de azulejos coloridos no centro, tive por fim uma linda vista da casa, que fica na parte mais alta do terreno.

Antes de entrar na casa propriamente dita já se pode ver na parte inferior um espaço aberto com vários objetos e peças de arte popular da coleção do casal. Há um grande banco de madeira talhado com figura de mulher com traços indígenas, amamentado criança e a “cadeira de beira de estrada”, confeccionada apenas com três galhos amarrados com cipó e um tronco entre eles para que pessoas de regiões mais rústicas, que comoveram a arquiteta, pudessem sentar enquanto aguardavam transporte na estrada.

A entrada na casa se faz por uma escada simples e vazada, de aço e granito, em dois lances, que pode ser identificada nas fotos mais divulgadas de Lina. Primeiro visitamos o bloco da frente. Lina não gostava de iluminação de teto, e essa parte da casa possuía, e possui apenas luminárias laterais. Elas têm formato de cone e foram criadas pela própria Lina.

O piso desse grande salão é revestido em pastilhas azuis com os ambientes separados apenas pela mobília. Lina também não gostava de mobília pré-concebida e para adequar a seus projetos arquitetônicos desenhou e produziu todo o mobiliário da casa, que pode ser visto na visita. Ao entrar na sala, entre diversos móveis, destaca-se uma grande e bela mesa de centro, com estrutura de ferro azul e tampo com trabalhos em mármore. Cercam a mesa quatro poltronas criadas por Lina, em ferro com encosto e assento feitos em couro algo rústico e duas esferas douradas na extremidade dos braços das poltronas, que servem de apoio para quem se levanta.

Depois passamos pela cozinha para chegar ao segundo bloco da casa, mas a cozinha merece uma descrição à parte. Lina gostava muito de cozinhar, conforme fui informada, e não poupou detalhes modernos e funcionais para isso. As fotos mostram os dois fogões industriais, parte da bancada em aço inox, a mesa retrátil da cozinha, em fórmica e uma lavadora de louça moderna para a época e muito bem conservada. O tampo da pia era em aço inox e aqui sim, havia luminária no teto, desenhada por Lina. Como na época em que a casa foi construída não havia coleta pública de lixo e foi instalado então um incinerador para queimar o lixo.

O segundo bloco da casa, na parte posterior do terreno, forma um bloco maciço de alvenaria totalmente apoiado no terreno, com relativamente poucas e pequenas janelas. Esta parte era destinada aos serviços e dormitórios.

O segundo bloco da casa, na parte posterior do terreno, forma um bloco maciço de alvenaria totalmente apoiado no terreno, com relativamente poucas e pequenas janelas. Esta parte era destinada aos serviços e dormitórios.

No segundo bloco da casa, o cômodo que achei mais interessante foi o quarto de Lina, que para mim mostra muito de sua personalidade. Como os demais cômodos a iluminação vem de arandelas e abajures com o desenho em cone. A janela é ampla e mostra a mata externa. O quarto aparenta pouco conforto e foi planejado, conforme se sabe, apenas para dormir. A decoração é simples e a cama e os móveis de cabeceira foram criados especialmente para ela. A cabeceira é em tubo azul combinando com a sala, com capa de tecido, e mostra nos cantos superiores, a estrutura. O pequeno móvel lateral tem um curioso e nada convencional sistema de apoio que reforça a utilização da geometria por Lina.

As maçanetas das portas da Casa de Vidro também foram projetadas por Lina e executadas especialmente para a residência. Embora seja divulgado que os acervos do arquivo ocupem várias áreas da casa, em minha visita nada me foi apresentado. Havia portas fechadas no segundo bloco da casa e apenas um escritório em funcionamento.

Seguindo a visita, nos fundos do terreno da casa há dois fornos a lenha, a horta, a casa dos cães o atelier e entre a mata, com privacidade, a casa do caseiro.

A visita à Casa de Vidro vale muito a pena, pois é uma chance única de conhecer um pouco mais um desses lugares pouco conhecidos e encantadores da cidade.

O Instituto Lina Bo e P. M. Bardi

Em 1990, por uma decisão do casal, foi fundado o Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, com a denominação inicial de Instituto Quadrante, para divulgar e promover a cultura e as artes brasileiras no Brasil e no exterior e preservar acervos de arquitetura no país. O instituto abriga, além de obras de arte, gravuras, documentos, objetos, e os informados 6.633 desenhos, 7.008 fotografias e 2.795 livros, além do arquivo pessoal de ambos, significativo para a cultura do Brasil.

Com o decorrer dos anos e após a morte de Pietro Bardi, em 1999, porém, dificuldades ocorreram. As características de construção da Casa de Vidro exigiam obras constantes e dispendiosas de manutenção, principalmente com relação a infiltrações e áreas com oxidação, além de infestação intensa de cupins. Queda de pedaços do revestimento externo da sala levou à interdição das visitas em 2006 para novos trabalhos de manutenção e restauro da casa.

Há um fundo da Instituição advindo da venda de uma obra de arte, porém a manutenção do Instituto necessitou ser compartilhada pelo poder público e por instituições privadas. Exposições e visitas auxiliam na preservação do fundo.

Detalhe: Para comemorar o centenário de nascimento de Lina Bo Bardi, o Instituto reuniu várias iniciativas dispersas em um comitê curador, organizando a programação de exposições, publicações, filmes, encontros e uma campanha pela recuperação de suas principais obras, incluindo o MASP.

Visitas

O Instituto Lina Bo e P.M. Bardi atende a visitantes duas vezes por semana, com dias a combinar, e agendamento pelo e-mail: visita@institutobardi.com.br. A minha visita foi agendada por telefone, sem qualquer dificuldade, e ocorreu no horário combinado.

A taxa de visitação descrita no site no dia de hoje é de R$10,00 para estudantes e R$20,00 para públicos em geral, inclusive idosos.

Não há visitas aos finais de semana e não é permitida a entrada de veículos. Analise, portanto o trajeto e condições de segurança para estacionar seu veículo. Minha visita foi resolvida mediante transporte de táxi.

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