“No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos” O que você encontrará na exposição

Um dos mais importantes artistas do modernismo brasileiro, Emiliano Di Cavalcanti, é tema de grande mostra retrospectiva na Pinacoteca de São Paulo com o título “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos”.
A data inaugural de 2 de setembro de 2017 foi escolhida para celebrar o mês em que se comemora 120 anos do nascimento do artista, 6 de setembro.
Entre pinturas, desenhos e ilustrações, estão em exposição mais de 200 obras produzidas ao longo de seis décadas da carreira do pintor, mostrando as várias habilidades e fases de Di Cavalcanti, reunidas durante um ano pelo curador José Augusto Ribeiro. Essa é a maior exposição já realizada desde seu falecimento e por isso merece nosso destaque neste post.

Longe de realizar aqui uma análise de arte, visamos trazer a experiência da visita à exposição e fornecer algumas informações complementares.

Iniciando pelo título da mostra “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos” segue a informação do curador: “O título se refere aos lugares que o artista costumava figurar nas suas pinturas e desenhos: os bordeis, os bares, a zona portuária, o mangue, os morros cariocas, as rodas de samba e as festas populares – lugares e situações que, na obra do Di, são representados como espaços de prazer e descanso”. A ambigüidade do título é explicada pela curadoria como o “retrato do subúrbio não no sentido geográfico, mas no sentido da parte da sociedade que estava mais à margem das classes mais abastadas”.
Detalhes das obras de Di Cavalcanti são muitos, podendo ser condensados em sua atuação mais famosa na carreira que é a pintura e aspectos menos conhecidos do público como as ilustrações e charges para revistas, livros e até mesmo capas de discos. Obras icônicas e outras raras estão em exibição e são procedentes de coleções públicas e particulares do Brasil e de outros países da América Latina.

Sobre Di Cavalcanti

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo (1897-1976) foi ilustrador, caricaturista, gravador, muralista, jornalista, escritor e cenógrafo.
Nasceu no velho centro do Rio de Janeiro e herdou do pai o nome da tradicional família pernambucana Cavalcanti de Albuquerque.
Informações dão conta que aos 11 anos teve suas primeiras aulas de pintura com o artista Gaspar Puga Garcia. Aos 17 anos, com a morte de seu pai, Di Cavalcanti começou a trabalhar fazendo ilustrações e caricaturas para a Revista Fon-Fon, onde já mostrava seu talento artístico. Na mesma época, também participou do 1º Salão dos Humoristas, no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro.
Aos 19 anos entrou para a Faculdade de Direito, porém não concluiu os estudos.

Di Cavalcanti mudou-se do Rio de Janeiro para São Paulo em 1917, trabalhando como arquivista no jornal O Estado de São Paulo e como ilustrador de livros. Já era engajado na arte moderna a ponto de participar da idealização da ”Semana de Arte Moderna” no Teatro Municipal de São Paulo em 1922, o que destacou seu nome definitivamente. Esse evento foi um marco no modernismo ao apresentar à sociedade tradicional as tendências artísticas que já vigoravam na Europa, de novos valores literários e estéticos, onde chamava à atenção a influência do cubismo e do expressionismo, repercutindo em obras de arte que aboliam por completo a perfeição estética tão apreciada.

Em 1923 Di Cavalcanti fez sua primeira viagem à Europa permanecendo em Paris durante dois anos. Nesse período trabalhou como correspondente de jornal aprimorou conhecimentos, seguiu seu trabalho em ateliê realizando exposições e conviveu com famosos artistas como Pablo Picasso, que viriam a influenciar definitivamente a sua arte.
No retorno ao Brasil suas pinturas de cores mais sombrias passaram a apresentar cores mais intensas, “porte volumoso e monumental nos personagens e tratamento às mãos e pés”, mostrando a influência de Pablo Picasso. É dessa época também a produção de obras com teor crítico à realidade social e política brasileira.

Seu envolvimento com os problemas nacionais lhe custou prisões, em 1932 no período da Revolução Constitucionalista e em 1936, quando seguia criticando o militarismo como na série de desenhos A Realidade Brasileira. Libertado, voltou a Paris, de onde retornou para São Paulo em 1940.
Predominam trabalhos realizados no período de maior regularidade de produção artística, que ocorreu entre 1920 e 1950.
Di Cavalcanti faleceu no Rio de Janeiro em 26 de Outubro de 1976 aos 79 anos de idade por conta de uma hepatite e seu corpo foi velado no Museu de Arte Moderna.

Como é a mostra? Relato de experiência

As obras de Di Cavalcanti estão expostas em sete salas do primeiro andar da Pinacoteca e, segundo o curador José Augusto Ribeiro, visam investigar como o artista desenvolveu a idéia de “arte moderna e brasileira”.
O que vimos? Obras que apontam a influência do expressionismo e do cubismo e que mostram, de forma única, temas da cultura brasileira com destaque para a vida boêmia carioca. São quadros sobre o carnaval e seus pierrôs, “pierretes” e foliões mascarados. Di Cavalcanti também retratou o cotidiano e temas sociais brasileiros em cenários de pescadores, colonos, operários em trabalho e em descanso, festas populares, e paisagens de subúrbio e tudo isso está exposto para ser admirado. Di retratava como ninguém a bela sensualidade tropical brasileira, com destaque para a figura da mulata e o papel social das mulheres, valorizando-as em múltiplas atividades.

Visitamos a exposição em seu primeiro dia de exibição ao público e pudemos observar visitantes demonstrando suas sensações e opiniões à mídia. Algumas opiniões, o que inclui a nossa, eram recorrentes. A mostra leva o visitante a algum nível de surpresa, tamanha a variedade e quantidade da produção do artista apresentada.

Além das pinturas, que se destacam pela fama, dimensões e características, outras facetas de sua produção também estão expostas. Há obras em diversos materiais como óleo, guache, nanquim, crayon.
A exposição que inclui trabalhos de 1910 a 1970 possui obras dispostas sem ordem cronológica definida, mas que tendem a mostrar estilos mais semelhantes em cada sala. Da mesma forma, as ilustrações de livros, revistas e charges são exibidas numa seqüência em prateleiras envidraçadas. É possível admirar capas e ilustrações no interior de livros e até a ilustração feita para a capa do LP “Noel Rosa”, interpretado por Aracy e Almeida.
Di Cavalcanti ilustrou livros de Oscar Wilde como Balada do Enforcado , Álvaro de Azevedo, Manuel Bandeira, Jorge Amado, Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Vinícius de Moraes e vários trabalhos estão expostos.
Como chargista Di Cavancanti explorou o tom pastel, em sua maioria retratando figuras femininas e ganhou de Mário de Andrade o apelido de “menestrel dos tons velados”.

Detalhes de obras em destaque além da exposição:
Di Cavalcanti foi convidado por Oscar Niemeyer para criar imagens em tapeçarias para o Palácio da Alvorada em Brasília. Além disso, pintou as estações para a via-sacra da Catedral de Brasília.
Sua convivência com muralistas como Diego Rivera renderam novo caminho ao artista, que também realizou grandes painéis e murais como o encontrado na fachada do Hotel Jaraguá em São Paulo.

Sobre a visitação

De alguma forma havia certa impressão de que o preparo para a exposição não estava pronto. Havia aproximadamente um funcionário na entrada de cada sala, padrão habitual da Pinacoteca. Contudo, eles eram completamente desconhecedores do que estava exposto e não sabiam orientar os visitantes como para que lado deveríamos nos dirigir ou o que havia em cada sala. Fotos eram permitidas sem flash, porém flashes amadores foram disparados sem qualquer atenção desses funcionários, descaso que não é habitual em museus.
Com catálogos apenas em promessa de publicação, o único guia eram os textos das paredes, bastante limitados como orientação.
Vale uma segunda visita pois o acervo apresentado é muito vasto e rico merecendo a busca por detalhes.

Fotos de obras na exposição selecionadas para exemplos mais detalhados

Cinco Moças de Guaratinguetá
Essa é uma das mais conhecidas pinturas de Di Cavalcanti e pertence ao acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Foi produzida em 1930 em óleo sobre tela e suas dimensões são de 92 x 70 centímetros.
Podemos descrever a icônica obra com destaque para as cinco moças, que ocupam quase toda a tela, em planos diferentes, com duas delas em primeiro plano. As moças têm traços de rosto semelhantes e olham para diferentes horizontes. Estão vestindo coloridas roupas de verão que combinam com seus chapéus. Uma delas carrega uma sombrinha aberta. A moça no canto superior direito da tela parece estar sentada, tem a cabeça apoiada no braço e está afastada das outras quatro, com o olhar distante parecendo sair da tela. A cena mostra mulheres em cidade do interior, em atmosfera cotidiana humilde e brejeira. Diferem bastante das imagens de mulheres deitadas e sensuais, recorrentes na produção de Di Cavalcanti.

Cena de rua
Essa obra dá capa ao livreto de programação de setembro a dezembro de 2017 na Pinacoteca. Foi criada em 1931 e pertence ao Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA).
Informações do próprio MALBA referem que: a obra em têmpera, tinta e grafite sobre papel reflete a influência do expressionismo alemão que Di Cavalcanti sofreu em sua primeira viagem à Europa, particularmente do futurismo e cubismo de George Grosz, com figuras que se parecem a caricaturas. Em Cenas de rua há saturação de cores e excesso de elementos superpostos.
Diferentemente das obras de seu inspirador Grosz, onde as figuras femininas eram inspiradas na vida noturna e decadente de Berlim, na obra de Di Cavalcanti são retratados amigos seus. Na tela há uma dedicatória: “Para Berta e Henrique off. (oferece) Di Cavalcanti”. Eles são, respectivamente, a atriz russa, naturalizada argentina, Berta Singerman e seu marido, o empresário polonês Rubén Enrique Stoleck. Berta se apresentou muitas vezes no Brasil com grande sucesso. Ao retratar Berta são ressaltados como elementos centrais os olhos da atriz, semicerrados e misteriosos. A figura masculina de perfil que aparece atrás da atriz representa seu marido e a mulher ruiva, proporcionalmente menor e situada no lado esquerdo da tela tem as características de Paulina Singerman, irmã de Berta, também atriz e famosa pela cor dos cabelos e seus olhos claros. O papel é preenchido por desenhos de construções arquitetônicas.
As fotos obtidas durante a exposição sofreram interferência dos reflexos da luz externa devido à localização do quadro e desta forma a imagem apresentada de Cenas de rua foi obtida da página do MALBA para mostrar maiores detalhes.

O grande carnaval
Obra em óleo sobre tela de 1953 que reflete a admiração de Di Cavalcanti pelos cordões de carnaval e as rodas de samba, retratadas desde o começo dos anos de 1920 até o final da sua trajetória. Em texto obtido na exposição notamos que “O contexto dessa obra remonta a um momento de virada no significado dessas manifestações culturais para a cultura do Brasil. Da criminalização os grupos carnavalescos pela polícia do Estado no começo do século XX, sob a acusação de que seriam grotescos, sujos e violentos, para a consagração nacionalista do samba e do carnaval após a década de 1930, quando foram alçados a símbolos da pátria e expressões espontâneas e folclóricas do povo”. Na obra há contraste entre tons vibrantes nos personagens e tons escuros no fundo da tela, conferindo profundidade.

Desenho de capa da revista O Cruzeiro
Di Cavalcanti publicou sua primeira ilustração em 1914 na revista carioca Fon-Fon. A seguir, entre 1917 e 1923 realizou ilustrações para revistas como A Cigarra e O Cruzeiro. O estilo gráfico foi se transformando, de traços finos e delicados de influência da estética art nouveau a grandes desenhos de cores vivas ocupando áreas maiores de superfície do papel, como na ilustração da foto da revista o Cruzeiro.
Posteriormente Di Cavalcanti fez ilustrações para discos de vinil e para os dois volumes de sua autobiografia.

Bordel
Óleo sobre tela da década de 1930. Dimensão de 80,5 x 100cm. Esta bela obra tem como detalhe as bordas da pintura irregulares, feitas com a mesma sinuosidade dos corpos das quatro prostitutas do bordel. Observa-se que estão representadas várias etnias na cor da pele e cabelos das figuras roliças. O pintor detalhou os rostos maquiados e esmalte vermelhos nas unhas. As figuras femininas preenchem quase toda a tela, que é completada por um espelho e pela sinuosidade de montanhas ao fundo. As mulheres sempre sensuais e coloridas são uma das marcas das obras de Di Cavalcanti, como um sentimento novo em relação à figura feminina. É mais uma obra que reforça a paixão do autor pela vida boêmia.

No subúrbio da modernidade — Di Cavalcanti 120 anos
Patrocínio de Banco Bradesco, Sabesp, Ultra, Escritório Mattos Filho e Alexandre Birman.
Quando: 02 de Setembro de 2017 a 22 de Janeiro de 2018
Horários: quarta a segunda-feira, 10h às 17h30
Ingressos: R$6 (inteira) e R$3 (meia). Crianças com menos de 10 anos e adultos com mais de 60 anos não pagam. Aos sábados a entrada é gratuita.
Local: Pinacoteca de São Paulo. Praça da Luz, 02, São Paulo – SP

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