Monumento aos Fundadores de São Paulo: nômade, oculto e confundido

O Monumento aos Fundadores de São Paulo, de autoria do artista plástico Luiz Morrone, presta homenagem a personagens considerados fundamentais no processo de fundação da cidade de São Paulo, protagonizada por jesuítas e membros do governo português. Foi encomendada a ele por representantes da colônia portuguesa, que, organizados numa comissão, decidiram pela criação do monumento. Foi construído entre 1952 e 1962, sendo lançada em 18 de outubro a pedra fundamental por ocasião do aniversário da morte do padre Manoel da Nóbrega. Foi inaugurado em 25 de janeiro de 1963, data de aniversário da cidade de São Paulo. O conjunto escultórico é composto por oito figuras de bronze sobre um pedestal de granito rosa de 1,05m x 5,30m x 7,40m, com dimensão total de 4,20m x 1,70m x 3,70m.

As figuras representam os jesuítas Manuel da Nóbrega, “o primeiro apóstolo do Brasil”, José de Anchieta, sucessor de Nóbrega e grande missionário, e o padre Manoel de Paiva, que rezou a primeira missa no colégio jesuíta do Planalto de Piratininga, onde agora é a cidade de São Paulo.

Os representantes do governo português esculpidos são o comandante da primeira expedição colonizadora ao Brasil em 1531 e fundador da primeira cidade brasileira, São Vicente, Governador Martim Afonso de Souza e João Ramalho, que vivia entre os índios e conduziu Martim Afonso em segurança do litoral às terras de Piratininga.

Sugerindo a convivência pacífica dos colonizadores com os indígenas estão, ao lado de João Ramalho, a esposa Bartira e seu pai, o cacique tupiniquim Tibiriçá, grande aliado dos portugueses e líder dos nativos na região. João Ramalho e Bartira deram início à miscigenação na cidade, mostrado pela pequena criança no colo de Bartira. No lado oposto a estes indígenas e sugerindo a mesma união entre colonizadores e colonizados está a escultura curumim, que em tupi-guarani significa criança, como que amparado pelo padre Anchieta.

Uma grande cruz (em 2016, no momento da foto, apenas com a haste vertical) simboliza o catolicismo.

Detalhe que a criança menor, no colo de Bartira, não é habitualmente contabilizada na descrição do monumento, sendo que na verdade há nove pessoas retratadas no monumento. Nas inscrições de identificação no próprio monumento este bebê também não é identificado. Por quê?

Há ainda duas placas de bronze em baixo relevo com a representação da primeira missa em São Paulo e da fundação de São Vicente, a primeira cidade brasileira, fundada por Martim Afonso. Na verdade, no momento desta postagem há apenas a representação da fundação de São Vicente e uma placa informada sobre o furto da outra placa.

Veja quantas Informações existem na obra:

Placas:

  1. Placa de bronze (2,40m X 1,50m) com representação da primeira missa de São Paulo e assinatura no canto direito interior. Após o furto em 2004 foi substituída por placa informativa (ver foto).
    Diz o texto:

    Este espaço foi ocupado, originalmente, por uma placa de bronze com uma representação da primeira missa em São Paulo. A placa foi furtada em 2004 e, devido à insuficiência de registros, não foi possível reproduzi-la

  2. Placa de bronze (2,40m X 1,50m), inscrição na parte superior: FUNDAÇÃO DE SÃO VICENTE. Assinatura no canto inferior direito: L. MORRONE 1962

Inscrições:

  1. Face frontal do pedestal: PADRE MANOEL DA NÓBREGA FUNDADOR DE SÃO PAULO BANDEIRANTE DE DEUS NO BRASIL
  2. Face lateral esquerda do pedestal: TIBIRIÇA – BARTIRA – JOÃO RAMALHO
  3. Face posterior do pedestal: GOVERNADOR MARTIM AFONSO DE SOUZA MONUMENTO À FUNDAÇÃO DE SÃO PAULO MOVIMENTO E CAMPANHA PADRE MANOEL DE NÓBREGA 1952 – 1963
  4. Face lateral direita do pedestal: PADRE JOSÉ DE ANCHIETA CURUMIM PADRE MANUEL DE PAIVA Assinatura – L. MORRONE

Este é um dos monumentos nômades da cidade de São Paulo, pois não se encontra atualmente no mesmo local em que foi instalado em sua inauguração.

Sua primeira localização foi na Praça Clóvis Bevilacqua, nas proximidades da Praça da Sé, onde permaneceu até o início da década de 1970. Na época do projeto a ampla praça ainda contava com belos jardins, que aos poucos foram emprestando espaço para a passagem de ônibus e bondes e, também para o monumento, cuja localização, era condizente com a região onde foi fundada a cidade de São Paulo. As obras do Metropolitano de São Paulo na Praça da Sé – Estação Sé do Metrô – provocaram grandes remodelações tanto na Praça da Sé quanto Praça Clóvis Bevilacqua e em todo o entorno, o que incluiu a remoção do monumento. O Monumento aos Fundadores de São Paulo foi transferido então da região central para o endereço onde se encontra no momento, Rua Manoel da Nóbrega sem número, no bairro de Vila Mariana, zona sul de São Paulo.

É um monumento oculto dos olhos da população, pois sua localização, literalmente no meio do nada e cercado por vagas para estacionamento de automóveis em todo o entorno, não atrai os olhares. O endereço referido à Rua Manoel da Nóbrega, bem poderia ser informado como Rua Nábia Abdala Chohfi, pois são as ruas das laterais do monumento. Na Rua Nábia está uma parte lateral do prédio da Assembléia Legislativa. A parte mais estreita poderia ter sua frente onde está inscrito o nome da obra, localizado de frente para uma micro-praça chamada Gen. Estilac Leal ou ter sua frente usando a cruz, a parte mais alta da obra e o Padre Manoel da Nóbrega como referência, e então o monumento estaria apontando para o Parque do Ibirapuera, sendo esta a parte que é considerada frontal na obra. Então o melhor endereço seria Avenida Pedro Álvares Cabral.

Fundamental observar que o monumento está oculto principalmente devido à abundante vegetação que cresceu ao seu redor e que impede que seja visto mesmo a partir da própria calçada onde se encontra.

E com quem ele é confundido? Com o monumento Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo, de Amedeu Zani, localizado no Páteo do Colégio, como identificação parecida e de grande visibilidade e popularidade.

Um majestoso monumento público localizado em local nobre está encoberto por árvores e arbustos e pela memória paulistana.

Vamos visitá-lo, fotografá-lo e divulgar para que não seja ainda mais esquecido. O entorno desorganizado para acomodar estacionamentos de automóveis poderia ter alguma utilidade pública maior se ali fosse criada uma verdadeira praça, incluindo a iluminação noturna do monumento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *