Memorial da Resistência de São Paulo

O Memorial da Resistência de São Paulo é um local dedicado à preservação da memória da resistência e da repressão política do Brasil republicano por meio de musealização do antigo edifício-sede de Departamento de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo (Deops/SP). O espaço informa propor-se principalmente a “ser um tributo a todos que, imbuídos de ideal de justiça e democracia, lutaram e lutam contra a opressão.”
Instalado no piso térreo da Estação Pinacoteca, esse prédio era utilizado como um encarceramento temporário para investigação pessoal e interrogatórios forçados durante o regime ditatorial militar. Após período variável as pessoas reclusas sobreviventes eram encaminhadas aos presídios.

O Memorial da Resistência de São Paulo apresenta quatro eixos temáticos:

1- O edifício e suas memórias
Aqui são apresentados os diferentes usos e apropriações do edifício e a estrutura e funcionamento do Deops/SP.

2- Controle, repressão e resistência: o tempo político e a memória
No espaço destinado a esse tema, logo na entrada do Memorial, há telas interativas onde o visitante pode clicar para ler textos e publicações com fotos que o colocarão a par do que está exposto. Aqui pode também ser acompanhada em uma linha do tempo desde a Proclamação da República até o ano de 2008, dados da evolução política e de desdobramentos de fatos importantes relativos ao tema do Memorial com base em publicações e fotos. Um painel ocupa duas paredes da sala adaptada que já foi ocupada por duas celas.
Há também um grande painel com a cronologia dos acontecimentos nos anos de repressão, com um pouco da história de algumas passeatas e protestos importantes.

3 – A construção da memória: o cotidiano nas celas do Deops/SP
Ocupa a mais impressionante parte da exposição e aborda exclusivamente o período do regime militar (1964 a 1983). Este eixo permite ao visitante a comparação entre o espaço prisional dos anos de 1969 a 1971 com o momento atual, a partir de diversos recursos expográficos. Detalhe que esse espaço foi refeito após a destruição ocorrida no fim do regime militar a partir de fotos e das memórias da vivência nas celas de ex-presos.
O conjunto prisional exposto é composto por quatro celas masculinas remanescentes, pelo corredor principal e pelo corredor para banhos de sol. Há uma maquete tridimensional que mostra e orienta os caminhos a serem seguidos no espaço prisional das dependências do Deops/SP.
As quatro celas permitem a entrada e permanência, e cada uma visa proporcionar uma sensação diferente e complementar. São celas masculinas. As celas femininas ficavam ao final do corredor e aparentemente já não existem.
Elas testemunham não apenas atrocidades e humilhações, mas também, e igualmente, atitudes de coragem, resistência e fraternidade.
A cela 1 mostra em fotos e textos os trabalhos do processo de implantação do Memorial da Resistência.
A cela 2 segunda presta uma homenagem aos milhares de presos desaparecidos e mortos em decorrência de ações do Deops/SP. São muitas máscaras iguais identificadas com nomes apontando para o centro da cela onde uma projeção fala por si.
A cela 3 foi reconstituída a partir das lembranças de familiares e ex-presos políticos que foram convidados a gravar nas paredes os seus nomes e os de presos que lá estiveram e que escreviam mensagens até mesmo com seu sangue. Há dois colchões com lençóis para mostrar a acomodação precária. Durante a visitação há seguranças que tem prazer em responder nossos questionamentos. Fiquei sabendo que cada cela tinha previsão para 16 presos porem que habitualmente esse número dobrava. As portas, todas iguais, e as colunas ainda são as mesmas daquela época embora nem todos os pisos sejam os originais.
A cela 4 é definida como oferecendo uma leitura da solidariedade entre os que estiveram encarcerados naquele local. Aqui também há bancos com pintura gasta que convidam a sentar para ouvir a gravação com vários relatos da vida na cela. Num dos relatos somos informados que uma das piores coisas era o som constante e intenso da passagem dos trens bem ao lado.
Outro relato gravado explica sobre um cravo vermelho iluminado em destaque na cela 4. Ele foi recebido pela militante Elza Lobo após pedir flores a um visitante. Recebeu cravos vermelhos que foram distribuídos entre os presos na época do Natal.

4 – Da carceragem ao Centro de Referência
Oferece possibilidades de aprofundamento temático por meio da consulta a bancos de dados referenciais.

O Memorial da Resistência de São Paulo está estruturado para abordar seis linhas de ação. São elas: Centro de referência, lugares da memória, coleta regular de testemunhos, exposições de longa duração e temporárias, ações educativas e ação cultural.
Em minha visita tive a oportunidade de ver a exposição temporária “Carta aberta – correspondências na prisão”, a primeira a ocupar o terceiro andar do edifício, inaugurando o espaço de exposições temporárias do Memorial da Resistência de São Paulo. Iniciada em 10 de dezembro de 2016 tem o término previsto para 20 de março de 2017. Pela qualidade e importância da mostra espero que seja prorrogada.

Breve histórico das dependências do prédio
O belo prédio foi originalmente projetado pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo e inaugurado em 1914 para ser utilizado como administração e depósito da Estrada de Ferro Sorocabana. Em 1939 o edifício foi reformado para abrigar o Deops/SP, que em um ano o ocuparia por completo. Com a extinção do Deops/SP em 1983 passou a sediar a Delegacia de Defesa do Consumidor (Decon). Após seu tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo em 1999 e já sem as instalações da Decon houve várias propostas para novos usos culminando com a Instalação da Estação Pinacoteca.
Inicialmente denominado Memorial da Liberdade, foi inaugurado em 2002 sob a gestão do Arquivo Público do Estado. Após reiteradas ações de militância para a necessidade de um novo e mais profundo olhar, o atual projeto Memorial da Anistia Política no Memorial da Resistência de São Paulo foi inaugurado em 1º de maio de 2008 agora sob a coordenação da Pinacoteca de São Paulo assumindo o compromisso cívico de construção da história política do Brasil.
No local haviam originalmente dez celas, divididas em três blocos. Detalhe que praticamente toda a estrutura foi obviamente destruída sendo refeita com base em algumas fotos e relatos de ex-presos.

O Memorial da Resistência de São Paulo é um memorial que desperta, além das sensações de outros memoriais, a lembrança de tempos ainda recentes, que, mais ou menos conhecidos, não deixa de impressionar e produzir um respeitoso silêncio nos visitantes ao entrar nas celas vazias, mas cheias de muita informação.

Memorial da Resistência de São Paulo
Largo General Osório, 66 – Luz – São Paulo – SP
Telefone: 55 11 3335-4990 – Entrada Gratuita
Aberto de quarta a segunda (fechado às terças), das 10h00 às 17h30

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