Mãe Preta: um patrimônio histórico

Essa obra de arte exalta a figura da ama de leite negra, que criou os filhos dos senhores de engenho nos tempos coloniais. De autoria de Júlio Guerra, o monumento que presta homenagem à raça negra radicada no Brasil foi inaugurado em 1955 como parte das comemorações do quarto centenário de São Paulo.

No mesmo Largo do Paissandu onde está localizado o monumento destaca-se também uma igreja de cor amarelo intenso que parece lhe servir de moldura.
Para compreender o porquê dessas duas obras estarem no mesmo espaço temos que saber que a igreja, chamada Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi erigida nesse local em 1906.
A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi criada em 1711. A fundação da primeira igreja em honra a Nossa Senhora do Rosário data de meados de 1700 e estava localizada no Largo do Rosário, atual Praça Antônio Prado. Foi erguida por negros escravizados e alforriados e por abolicionistas para seu uso, pois na época havia muitas restrições para os negros que queriam frequentar as igrejas dos brancos.
Com a urbanização crescente os casarios antigos do largo foram demolidos bem como a igreja, que mais tarde foi reerguida no local atual, Largo do Paissandu, na época considerado afastado do centro da cidade.

A Mãe Preta
A figura algo nostálgica da mãe preta foi muito bem analisada no livro Políticas da Raça: experiências e legados da abolição e da pós-emancipação no Brasil, de Flávio Gomes e Petrônio Domingues.
No início dos anos 1900 o conceito de harmonia multirracial passou a ser amplamente divulgado e a Mãe Preta foi uma das poucas imagens positivas de negros na vida pública brasileira, sendo escolhida por escritores negros como figura de celebração de fraternidade afetiva. A imagem da contribuição da raça negra à identidade e à cultura do Brasil fica muito clara quando uma ama negra amamenta e proporciona saúde à criança branca.
Embora essa imagem tenha posteriormente se transformado em símbolo político e cultural de inclusão, o dia 28 de setembro, data em que foi sancionada a Lei do Ventre Livre, que libertava os filhos nascidos de escravas, é ainda comemorado como o Dia da Mãe Preta.

O monumento Mãe Preta
Tudo começou quando membros da agremiação negra paulistana
chamada Clube 220 propuseram a construção de um monumento à mãe preta em São Paulo. Sob a liderança de Frederico Penteado Jr a comissão do monumento conseguiu a aprovação do projeto na Câmara Municipal de São Paulo em 1953, que promoveu um concurso público. Júlio Guerra venceria esse concurso e criaria o monumento Mãe Preta a ser instalado na praça que também abriga a irmandade religiosa negra mais antiga de São Paulo e inaugurado em 23 de janeiro de 1955. A comissão julgadora considerou o projeto relevante por sua simplicidade e realismo.
Detalhes do monumento:
Peça em bronze fundido e patinado que retrata o momento da amamentação de uma mulher negra alimentando um menino aparentemente branco. É uma estátua que se comunica e revela detalhes sensíveis em sues corpos e sua postura.
Mede 2,20m x 2,60m x 1,60m.
A figura está sobre um pedestal de granito de 1,44m x 1,97m x 1,80m. Nele há uma apagada uma inscrição onde se lê: “Escravidão do amor, a criar os filhos alheios, rasgou, qual pelicano, as maternais entranhas, e deu à Pátria Livre, em holocausto, os seios!”.

Localização: Largo Paissandu, bairro República, Centro.
O monumento é uma das obras primas do artista santamarense Júlio Guerra.

Portanto, quando visitar o monumento Mãe Preta observe que além de uma obra de arte ele é uma escultura singular que representa uma história humana do período colonial brasileiro sendo considerado símbolo de fraternidade racial pelos próprios idealizadores.
Críticas ao fato de escravas serem obrigadas a amamentar os filhos dos brancos em prol de seus próprios filhos geram ainda divergências de interpretação dessa escultura, que é admirada por representar a inclusão da raça negra na família brasileira. Porém a Mãe Preta é tratada pela população como uma imagem pertencente à igreja, com direito a depósito de diversas oferendas e sendo referência para diversos eventos culturais.

Em 2004, com base em pedido encaminhado pela Irmandade do Rosário dos Homens Pretos e da comunidade local, o monumento à Mãe Preta foi tombado pelo CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), reconhecendo seu valor cultural para a cidade de São Paulo.

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