Castelinho da Rua Apa: passado e presente

O Castelinho da Rua Apa pertence ao grupo de edificações históricas de São Paulo consideradas folcloricamente como mal assombradas. Essa “fama”, relatada por alguns como a existência de vultos e sons inexplicáveis à noite se deve ao fato de ter ocorrido nesse local um triplo assassinato de seus proprietários, que até os dias atuais não possui uma explicação definitiva e talvez assim permaneça para sempre.

O Castelinho

O Castelinho da Rua Apa faz parte da primeira ocupação urbana do bairro de Santa Cecília, sendo um dos poucos remanescentes do início do século 20 no município de São Paulo que reflete a realidade da belle époque paulistana.
O Bairro de Santa Cecília teve a sua origem na chácara das Palmeiras, que na década de 1870 ainda possuía casa grande, senzalas, armazéns, cocheiras, plantações de chá e grandes capinzais. O desenvolvimento do bairro ocorreu através de vários projetos com destaque para o alargamento da Avenida São João, que proporcionou à área, antes predominantemente residencial, intensa atividade comercial.
O terreno, onde está localizado o imóvel pertenceu ao Brigadeiro Luiz Antonio de Souza Queiroz, o Barão de Limeira.
O imóvel de dois andares e 180 metros quadrados foi construído durante cinco anos em local privilegiado à época, entre 1912 e 1917, na forma de réplica de um castelo medieval francês, com seus vitrais pintados por renomados pintores da época e decorado entre outros, por tapetes indianos.
O Castelinho da Rua Apa foi projetado por um arquiteto trazido diretamente de Paris para executar a construção e quando a obra foi concluída era uma das mais suntuosas da região.

Dados do Patrimônio informam que a construção possui dois pavimentos e porão, com pé direito de 4,00 metros. O andar térreo abriga um vestíbulo, escritório, sala de visitas, hall, sala de jantar, copa, pequeno lavabo, cozinha e quarto para criada. O andar superior é composto pelos quartos, e um único banheiro.
O Castelinho da Rua Apa foi encomendado pelo médico e professor Dr. Vicente César dos Reis como presente à sua esposa Maria Cândida Guimarães dos Reis, a dona Candinha, para servir de residência ao casal e seus dois filhos, Armando e Álvaro. Nesse original sobrado a abastada e tradicional família realizava conhecidas festas para a sociedade.
Detalhe que dentre os bens da família, o proprietário do sobrado era também proprietário do Cine Teatro Broadway, famoso espaço paulistano à época e que foi o precursor da utilização do ar condicionado.
Álvaro César Guimarães Reis, 45 anos, era advogado, esportista aficionado em patinação sobre rodas e conhecido play boy e boêmio da cidade, onde circulava constantemente em sua moto. Armando César Guimarães Reis, 43 anos, também era advogado, mas tinha um perfil e estilo de vida mais discreto. Nenhum dos irmãos ainda morava com a mãe à época do crime, utilizando o local para escritório de advocacia.
Após uma viagem à Europa Álvaro estava empolgado em transformar o espaço do Cine Teatro Broadway numa grande pista de patinação no gelo e era sabido do atrito que esse e outros conflitos já geravam entre Álvaro, seu irmão e Dona Candinha.
O conflito chegara a ponto de ter sido informado a um delegado à época que Armando pensava em submeter o irmão, Álvaro, a um exame psiquiátrico.
Em março de 1937 ocorreu o falecimento do Dr. Vicente por ataque cardíaco e apenas dois meses após, no dia 13 de maio de 1937 aconteceria uma tragédia no conhecido castelinho que abalaria os paulistanos por longo tempo. Ao ser amplamente divulgado nos jornais da época terminou culminando com a fama de castelo assombrado pelos espíritos dos falecidos.

Um ano após o crime e o caso ser dado por encerrado foi realizado um leilão de todos os móveis da casa. Por motivos legais relativos a ausência de herdeiros de direito na família o Castelinho passou a pertencer ao Governo Federal e, desde 1987, posse do Serviço do Patrimônio do Ministério da Fazenda. Foi tombado como patrimônio histórico da cidade de São Paulo em dezembro de 2004.

O misterioso crime do Castelinho da Rua Apa

Quando Elza Lengfelder chegou à casa por volta das 21 horas de 12 de maio de 1937 atraída pelo som de tiros e viu a cena do crime, ela teria saído às ruas para chamar um policial e este acionado o delegado de plantão. Elza era a cozinheira e governanta do Castelinho e morava com sua família em uma casa anexa à residência.
A cena era aterrorizante: os corpos de dona Candinha, 73 anos, e dos irmãos Armando e Álvaro, encontravam-se estirados no chão mortos por tiros de revólver.
Álvaro apresentava dois ferimentos por arma de fogo no coração e estava com seus olhos completamente abertos. Armando tinha ferimentos por arma de fogo na têmpora, cuja lateralidade não é referida. Os corpos estavam voltados para cima e dispostos em paralelo, na entrada do escritório do piso térreo da casa, que tem a janela voltada para a esquina da rua. Perto dos corpos foi encontrada uma pistola alemã marca Mauser, calibre 9mm, registrada em nome de Álvaro.
A aproximadamente três metros dos irmãos, no hall junto à escadaria do sobrado, estava o corpo de Dona Candinha com marcas de três tiros, depois revisado para quatro tiros, dois no tórax e dois nas costas. Respingos de sangue sugeriam sua caminhada.
O delegado de plantão chamou os peritos da polícia técnica e o médico legista, Dr. Souza Aranha para realizar os levantamentos técnicos.
A partir deste momento se iniciaram diversas contradições acerca do crime, contradições essas que ainda persistem. A apuração do crime ocorreu de forma rápida, não sem antes haver divergência entre os laudos da Polícia Técnica e do serviço Médico Legal de São Paulo sobre o autor dos crimes que dizimaram essa família que não possuía descendentes. Ficou concluído por fim que Álvaro Reis havia sido o autor dos disparos, matando-se a seguir. Desentendimento entre os irmãos gerara um dos assassinatos e a mãe fora alvejada na tentativa de apartar a discussão. Ao tentar fugir haveria recebido os dois últimos disparos. Os antecedentes de Álvaro e as especulações sobre sua irresponsabilidade com os empreendimentos da família foram determinantes para a conclusão da perícia, levando-se em conta a modesta capacidade técnica da polícia e o apelo que uma situação ocorrida na alta sociedade trazia.

Investigações posteriores e a tentativa de preservação da imagem da família

– O posicionamento dos corpos teria sido um dos principais combustíveis para que muitos achassem que os irmãos e a mãe teriam sido, na verdade, vítimas de um triplo homicídio. Essa possível quarta pessoa, o verdadeiro assassino, nunca foi nem mesmo investigado.
– Havia projéteis disparados de duas armas de diferentes calibres, uma das quais, uma Magnum Parabellum segundo consta, que nunca foi encontrada.
– Foi referido que o suicídio praticado com mais de um disparo seria muito raro de ocorrer. Uma das suspeitas iniciais foi a de que o responsável pelos assassinatos fora na verdade Armando Reis, que disparara sobre o coração de Álvaro e cometera suicídio com um tiro na têmpora, alvo bem mais explicável para um suicídio.
– Após a morte do patriarca teve início o desentendimento sobre a condução das finanças da família pelos dois irmãos, o que foi relatado à polícia apenas por conhecidos e funcionários das empresas.
– Outro detalhe que causou bastante contradição acerca das conclusões da polícia foi a posição dos corpos, uma vez que os irmãos estavam lado a lado e com os braços em posição simétrica, Álvaro com os braços semi abertos simetricamente ao longo do corpo e Armando com os braços fletidos e mãos postadas sobre o peito.
– Os projéteis não foram encontrados.
– Investigações posteriores ainda descobriram promissórias assinadas por Álvaro que o deixariam em situação financeira bastante delicada. É referido que essas promissórias haviam sido adulteradas pelos credores de forma a aumentar-lhes o valor.

Ao longo dos anos alguns pesquisadores tentaram auxiliar na elucidação desse drama na sociedade paulistana sem conduto obter sucesso. Surge então uma descendente remota da família, a sobrinha bisneta Leda de Castro Kiehl, filósofa de formação que, conhecedora das imprecisões sobre a conclusão do crime optou por analisar o material mais profundamente com o intuito de preservar o nome da família. A dedicação para tentar esclarecer os fatos ocorridos no Castelinho da Rua Apa culminou com a publicação em 2015 do livro O Crime do Castelinho: Mitos e Verdades, 78 anos depois da misteriosa tragédia. O livro coloca em xeque a versão oficial do triplo crime visando, conforme entrevista dada por ela, limpar o nome da família.
Leda entrevistou peritos, juristas e advogados, percorreu fóruns em São Paulo e pesquisou jornais e revistas de época. “Os jornais sempre comentaram que os falecidos não deixaram herdeiros, mas desconheciam que a matriarca da família possuía quatro sobrinhos, sendo que uma delas era minha avó, Maria Conceição Guimarães de Castro”.
A estranha posição dos corpos na cena do crime é ressaltada bem como o revólver não aparecer nas fotos iniciais. O corpo de Dona Candinha, sua tia-bisavó, não foi fotografado pela polícia técnica. Leda informa que Álvaro era sócio minoritário de um grupo com 33 sócios, portanto, não atraindo para seus sócios grandes suspeitas. Consta ainda que dois dias depois do crime a polícia confiscara tos os bens da família. Haveria outro motivo para o triplo assassinato?
Há ainda a opinião de Maria Cândida Cunha Bueno, a dona Baby, namorada de Álvaro Reis, que manteve durante toda sua vida a certeza da inocência do namorado. Dona Baby faleceu em 1988 aos 97 anos, ainda homenageando a memória de Álvaro.

Castelo Social Clube das Mães do Brasil

Após o crime o Castelinho da Rua Apa ficou fechado por décadas deteriorando-se progressivamente. Passou a depósito de sucatas, lixo, ferro velho e abrigo para moradores de rua e usuários de drogas. Foi cenário cinematográfico e de várias reportagens sensacionalistas. Transformou-se num acúmulo de ruínas que ameaçavam desmoronar, dessa forma mantendo a lenda que o cercava.

Com o tombamento em 2004 ocorreu a busca por parceiros para a revitalização e restauração do imóvel, que já havia sido cedido pela União à Organização Não Governamental (ONG) Clube de Mães do Brasil desde 1996, que nessa época ocupava um anexo do imóvel.
O Clube de Mães do Brasil é uma ONG que realiza trabalho social focado em capacitar ex-moradores de rua para a reinserção social incluindo crianças em situação de vulnerabilidade social. Foi idealizado por Maria Eulina Reis Silva Hilsenbeck, também ex-moradora de rua e que viu no Castelinho da Rua Apa que tanto admirava uma chance de poder ajudar a população de rua e menos privilegiada da região, sempre mediante a capacitação pessoal. Maria Eulina conta que por várias vezes utilizou o castelo abandonado como abrigo e nega ter vivido qualquer situação paranormal no imóvel. Seu sobrenome alemão foi herdado do marido, já falecido.

Por fim vieram as reformas que dariam espaço para a sede do Clube. As minuciosas obras de restauração por fim aconteceram, 2016 a 2017, financiadas pelo Fundo Estadual de Defesa dos Direitos Difusos (FID), da Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania.
Da antiga e romântica residência de luxo só haviam sobrado praticamente as paredes externas, pois o interior estava em vias de desabar por completo. A escadaria que levava ao segundo andar já havia sido removida, o telhado já nada tinha do original, as janelas não tinham mais os vidros e os pisos de belos ladrilhos hidráulicos estavam destruídos.

Trabalho minucioso na restauração do Castelinho da Rua Apa

Após trabalhosa seleção, o restauro foi conduzido pelo arquiteto Milton Nishida, que recuperou as partes originais do imóvel e refez o que já não existia mais.
A parte externa do Castelinho ficou exatamente igual ao projeto original. Resgatou-se a volumetria. O desafio maior viria, contudo na parte interna da casa. Os ambientes internos foram recriados e foi possível saber que o Castelinho da Rua Apa contava com elementos construtivos importados e avançados em tecnologia para a época como os caixilhos metálicos, quando era comum serem de madeira. Todas as janelas contavam com sistema de abertura basculante, também muito moderno e de difícil execução então.
Informações fornecidas na visita ao local dão conta que as obras de restauro foram divididas nos seguintes grupos: serviços preliminares referentes ao preparo de toda a infra-estrutura de ação, remoções e demolições, cobertura, fachadas, esquadrias internas e externas, pisos, paredes internas, forros, instalações e escadas.

Toda cobertura do Castelinho da Rua Apa comprometeu-se com o estado de abandono e sendo assim não havia remanescentes que pudessem ser restaurados e/ou recuperados sendo refeita por inteiro inclusive com colocação de novas telhas.
As fachadas apresentavam perda do revestimento, desplacamento, material faltante, presença de sujidade, umidade e sais. Não existiam mais forros no Castelinho, tanto no pavimento térreo como no pavimento superior. Originalmente eram peças de madeira, porém, não existem registros que comprovem as técnicas aplicadas e o estilo do forro em madeira.

As estruturas metálicas, como as grades das sacadas e as janelas precisaram ser recriadas utilizando a técnica da época, sem soldas ou parafusos. O serralheiro foi José Irineu, um dos poucos que dominava a antiga técnica. Foi construída uma escada metálica com acabamento dos pisos em madeira, mantendo o mesmo desenho da escada original, porém com a utilização de técnicas modernas.
Foi recuperada uma faixa decorativa encontrada na área de serviços após a retirada das várias camadas de tinta que havia.
O andar superior foi totalmente reconstruído, com pisos de madeira e vigas como era originalmente. Os vitrais foram refeitos. Um detalhe não explicado segundo o guia da visita fica por conta de um trilho de ferro que corta o cômodo localizado abaixo da torre. Simplesmente lá estava e lá permaneceu. A entrada do quarto “dos fundos”, que se atribui ao quarto do casal teve suas duas portas de entrada recuperada, originais por serem muito próximas e conduzirem ao mesmo local.

Os lindos pisos de ladrilhos hidráulicos que admiramos agora na casa forma recriados a partir de fotos dos originais, mantendo os mesmos desenhos e medidas. Detalhe curioso ocorreu no segundo andar na sacada do primeiro cômodo. Uma espessa camada de cimento foi retirada durante o restauro e abaixo dela ocultava-se um piso de ladrilhos hidráulicos azuis, que foi então recuperado. Ainda no piso superior foi recuperada uma floreira ainda com a terra da época áurea do Castelinho.

Por justa aderência às normas vigentes, há ares de modernidade no interior do imóvel principalmente quanto à adequação e funcionalidade das instalações hidráulicas, eletrônicas, de segurança e elétricas englobando a iluminação.

Nossa visita ao Castelinho da Rua Apa

O Castelinho da Rua Apa teve a reforma concluída em 2017 e oitenta anos depois de total abandono o brilho do Castelinho voltou. As portas começaram a se abrir para visitação em momentos predeterminados. A ONG está assumindo seu lugar.
Entre os dias 19 e 20 de agosto de 2017 o Castelinho foi aberto para visitação pública com opção de guia durante a terceira edição da Jornada do Patrimônio, e foi nesse evento que visitamos o imóvel. Lá estava o Castelinho da Rua Apa, totalmente restaurado em suas características originais, de portas e janelas abertas, pronto para recordar sua origem e mostrar seu novo momento e objetivo social.
O aspecto macabro já não existe e a lenda urbana talvez se apague para dar lugar a mais um local de destaque no resgate da cidadania na cidade de São Paulo.

A ONG deve usar cômodos para sua parte administrativa: escritório e sala de reuniões. Ao mesmo tempo, alguns projetos foram-nos apresentados na vista com enfoque especial para a cozinha pedagógica.
Bolsas e sacolas artesanais estavam à venda. É o Projeto Eco Arte, uma das iniciativas do Clube de Mães do Brasil, que desenvolve produtos confeccionados por alunos das atividades da ONG a partir da reutilização de materiais, papel e plástico, que seriam descartados. O Eco Arte já atendeu a mais de trezentas pessoas, contribuindo diretamente para a conscientização sobre a importância da sustentabilidade e respeito ao meio ambiente.
Dona Eulina sabe da dificuldade que terá em manter os seus sonhos e para isso já programa preparar o espaço para eventos corporativos e atividades culturais e de outros tipos aos fins de semana. E a visitação? Parece que também ocorrerá de forma rotineira. Há muito para ver e saber no Castelinho da Rua Apa.

Endereço:

Clube de Mães do Brasil: Rua Apa nº 236, esquina com a Avenida São João. Bairro de Santa Cecília, São Paulo.

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