Casa das Caldeiras: pelos subterrâneos da história de São Paulo

A Casa das Caldeiras é um edifício fabril da década de 1920 construído para abrigar as caldeiras que produziriam energia para todo o parque industrial das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. Situada em local privilegiado, foi erguida próxima às linhas de trem da cidade para facilitar a circulação da produção das fábricas. Com três enormes chaminés, o prédio em alvenaria com tijolos expostos possui pé direito muito alto para abrigar as imensas caldeiras que vinham da Europa.

A Casa das Caldeiras é o último remanescente do extenso conjunto industrial do italiano Francesco Matarazzo, que chegou a ocupar uma área de 113.721 m2 no bairro da Água Branca onde a área construída ultrapassava 96.000 m2. Os diversos setores do complexo industrial eram interligados por passarelas internas e escoavam sua produção por uma linha de trem própria, ligada à Estrada de Ferro Sorocabana.
O Complexo Industrial da Água Branca marca a expansão espacial e diversificação de atividades das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRFM) na cidade de São Paulo. Muitos operários trabalharam em suas indústrias ao longo do tempo e sempre houve preferência pelos funcionários de origem italiana.

O edifício é formado por um conjunto de três caldeiras abrigadas numa grande nave, distribuídas em dois pavimentos. Há dependências para atividades subsidiárias, além dos famosos túneis subterrâneos e as comportas associadas ao sistema de circulação de ar. O destaque fica por conta das três chaminés de alvenaria refratária, cujas alturas variam de 46 a 54 m e os diâmetros externos de 2,60 a 4,40 m.

O acesso à Casa das Caldeiras é amplo e já mostra detalhes de sua história. Uma locomotiva verde e bem conservada sobre trilhos recebe os visitantes e tem o nome de Filomena, a esposa de Francisco Matarazzo. Ao entrar na casa é possível ver detalhes daquele ambiente que foi antigamente extremamente quente e ruidoso, onde a fumaça produzida pela queima do carvão inundava cada corredor, os túneis-galerias, para alcançar o meio externo ao subir pelas chaminés. Impossível não se impressionar com a gigante base da chaminé de tijolos olhando à esquerda e com a caldeira à direita. Os tijolos marcados de negro pela fumaça ainda estão ali bem como as portas das fornalhas onde o carvão era colocado para aquecer a água nas caldeiras e então transformar tudo em energia.
A visita nos leva à entrada original por onde passavam os operários e apresenta os túneis de tijolos que lotavam de fumaça até a base das chaminés. Pode-se permanecer literalmente dentro de duas das chaminés e olhar o céu através de sua altura. A terceira chaminé, à direita, está interditada no momento. Há ainda painéis explicativos onde mais informações e fotos podem ser consultadas.

Sobre sua construção sabe-se que a primeira planta foi entregue em 1923 à Prefeitura Municipal com o desenho de um bloco único de alvenaria de tijolos. É referido que uma provável construção anterior teria sido prolongada e seu alinhamento alterado. “Desta fase persiste a estrutura principal de alvenaria, embora desfigurada pela abertura de novos vãos e outros fechamentos”.
Em 1936, uma nova planta foi encaminhada para aprovação com ampliações e reformas, sem mudanças significativas na estrutura primitiva. Foram construídos novos fornos e caldeira, que exigiam outra chaminé edificada na extremidade oposta daquela já existente.
A terceira ampliação ocorreu em 1953 onde foi construído um corpo anexo para servir como reservatório de água para as caldeiras, nova escadaria, uma plataforma coberta por laje de concreto armado a ser utilizada como depósito e foram instaladas caldeiras de maiores dimensões. Elementos vazados foram instalados para proporcionar maior iluminação e exaustão do calor.
Toda essa magistral estrutura começou a ser desativada em 1950, interrompendo completamente as atividades na década de 1980. Por anos a Casa das Caldeiras permaneceu sem uso e abandonada, mesmo já tombada pelo Patrimônio.

… mas a história se eternizou

A Casa das Caldeiras foi tombada em 1986 pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) e pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) por seu valor simbólico como edificação remanescente das IRFM – Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, uma vez que todos os outros edifícios tinham sido demolidos.
Entre 1998 e 1999 por fim foi restaurada e revitalizada e dessa forma também a sua história. “As características do edifício foram mantidas. Sobre as caldeiras remanescentes, apenas uma apresentava-se com todos os seus componentes íntegros. Uma segunda caldeira foi mantida à mostra com todo o sistema de circulação possibilitando assim o entendimento de seu funcionamento. A última caldeira apenas foi reparada com os poucos elementos estruturais restantes”.
Há um salão com pé direito altíssimo, com grandes janelas, que também serve de espaço para eventos.

A casa das Caldeiras é hoje um Centro Cultural de Produções Independentes, palco de eventos variados de caráter artístico, cultural e social como apresentações teatrais, musicais, de cinema e exposições de arte nos finais de semana. Durante a semana ela é reservada para eventos fechados.
Há investimento em treinamento de sua equipe e as visitas guiadas são gratuitas.
Viva novamente no cotidiano paulistano, agora como lazer e espaço de orgulho histórico, as três chaminés da Casa das Caldeiras convidam desde sua altura a adentrar em seus túneis e participar da nova vida dentro da Casa.

Quem foi o Conde Francesco Matarazzo

Francesco Matarazzo é o nome que mais representa a história da industrialização e desenvolvimento da cidade de São Paulo.
Procedente de uma família italiana de Nápoles, que sofreu com a crise político-econômica européia de sua época. Ainda adolescente assumiu os negócios agropecuários da família e, motivado por sua mãe, culminou animando-se com a expectativa de futuro que o Brasil oferecia, imigrando em 1881.
Francisco Matarazzo chegou ao Brasil em 1881 aos 27 anos e sempre teve alto espírito visionário e empreendedor. Sabedor que era de que o Brasil importava banha para várias finalidades, trouxe consigo o que podia dessa mercadoria para comercializar e iniciar sua nova vida. Chegando à Baía da Guanabara teve um grave contratempo. A carga de banha de porco que trazia extraviou-se e nada ficara então para iniciar sua idéia empreendedora.
Seguiu para Sorocaba, no interior de São Paulo, onde foi acolhido por um amigo e logo passou a comercializar secos e molhados. Pensando no mercado interno, no ano seguinte começou a produzir banha de porco, que normalmente era importada. Matarazzo escolhia pessoalmente os porcos e guardava a banha em barris de madeira, que vendia aos fregueses de porta em porta. Naquela época, o café era o produto mais importante da economia brasileira, mas Matarazzo decidiu investir em outros produtos que faziam parte da mesa dos brasileiros como o arroz, o queijo, o óleo etc.
Em 1890 transferiu-se para São Paulo, trazendo da Itália mulher, filhos e montou uma empresa com dois irmãos. Embora convivendo com o império que café já proporcionava na cidade, Francesco Matarazzo diversificou e buscou produzir os gêneros de primeira necessidade que eram importados à época como sabão, sabonete, velas, fósforos, pregos, azulejos, óleo, licores, gêneros alimentícios diversos e, claro, banha de porco. A princípio montou um moinho de trigo, depois tecelagens, indústria metalúrgica, fábrica de papel, moinhos para a fabricação do sal, refinarias de açúcar e muito mais. Sua filosofia seguia o seguinte: percebia-se a falta de farinha, construía um moinho, se faltava espaço para expansão, construía mais uma fábrica, para embalar a farinha que produzia construiu uma tecelagem e para não comprar energia construiu sua própria usina, a Casa das Caldeiras. Na primeira década do século 20, já havia acumulado um capital considerável que aplicou em atividades industriais e comerciais.
Paralelamente à expansão industrial, Matarazzo tinha um banco, uma frota de navios, um terminal no porto de Santos e duas locomotivas para transportar mercadorias. Seu império expandiu também para a área da construção civil, deixando como legado, por exemplo, o Edifício Matarazzo, sede atual da Prefeitura de São Paulo.
Em 1911 uniu a administração de todas as suas centenas de fábricas e criou as famosas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, tornando-se homem mais rico do país e considerado detentor da quinta maior fortuna do planeta na ocasião de seu falecimento, aos 83 anos.
Detalhe que o título de Conde Matarazzo que o consagrou foi dado pelo rei Vítor Emanuel III da Itália em 1917, como reconhecimento pelo envio de mantimentos à Itália durante a Primeira Guerra Mundial.

Endereço: Associação Cultural Casa das Caldeiras
Avenida Francisco Matarazzo, 2000 – Água Branca – zona Oeste – São Paulo.
Tel.: (11) 3873-6696.
www.casadascaldeiras.com.br/blog

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