Cafezal do Instituto Biológico: seguindo o grão do chão à xícara

Você paulistano, já colheu café no pé alguma vez? Pois saiba que o Instituto Biológico, localizado no bairro da Vila Mariana na região sul da cidade, promove essa oportunidade há 12 anos, onde é possível participar gratuitamente de uma colheita urbana na cidade de São Paulo. A atividade é promovida apenas uma vez por ano no Cafezal do Instituto Biológico e marca simbolicamente a abertura da safra da colheita do café no Estado de São Paulo.
Nela é apresentado o Cafezal, iniciada a colheita dos primeiros grãos e fornecidas informações a respeito da importância do café para o desenvolvimento econômico de São Paulo, além de acompanhar o trabalho de máquinas como a despolpadeira e poder compreender e manusear os grãos do café em diferentes fases.
Os grãos colhidos serão beneficiados, torrados e encaminhados ao Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo em evento desta vez no Palácio do Governo de São Paulo. Em 2015, por exemplo, o Instituto Biológico doou 300 sacas de café para o Fundo.

Do chão à xícara para todos

O evento oficial que marca simbolicamente o início anual da safra do café chama-se “Sabor da Colheita”, que no ano registrado, 2017, em sua 12ª edição, ocorreu no Dia Nacional do Café. Nesse momento ocorre uma colheita simbólica dos primeiros grãos com a presença de autoridades e também aberto ao público. O “Sabor da Colheita” já é um evento tradicional da cidade de São Paulo, que marca o início da colheita de uma das principais commodities brasileiras e retoma a importância histórica do café para todo o Estado. Eventos como esse levam conhecimento e aproximam a população de seus valores e dos institutos de pesquisa.
O “Sabor da Colheita” é uma iniciativa da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio de ações integradas da Coordenadoria de Desenvolvimento dos Agronegócios (Codeagro), Câmara Setorial do Café e Instituto Biológico (IB). O evento conta com o apoio do Sindicato da Indústria do Café do Estado de São Paulo (Sindicafé), da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), das cooperativas de café do Estado de São Paulo e da empresa Syngenta.

O evento público da colheita do café ao qual me referirei neste post é como uma sequência do “Sabor da Colheita”, que ocorre em data pré-agendada na mesma semana, habitualmente em um sábado. No ano de 2017 aconteceu de forma muito feliz, pois, de acordo com a própria coordenadora do evento, foi possível aos visitantes acompanhar todos os passos do café do chão à xícara.
O que passarei a descrever ocorreu numa manhã de outono, exatamente no dia 27 de maio de 2017. O cafezal estava repleto de grãos vermelhos aguardando sua colheita e ainda mostrava outra infinidade de grãos que amadureceriam em questão de uma semana.
À medida que os visitantes foram chegando eram recebidos por monitores especialistas e, claro, pela dedicadíssima Harumi Hojo, engenheira agrônoma responsável pelo Cafezal, com explicações sobre todo o processo da produção do café, que também podia ser acompanhado através da observação de banners ilustrativos.
Detalhe que o evento não só era aberto à população, como aos seus pets, desde que “comportados”. Quem se locomoveu de automóvel também teve a possibilidade de estacionar seu veículo dentro do estacionamento do Instituto, o que facilitou em muito.
O tão aguardado momento chegou. De posse dos balaios que nos foram cedidos fomos todos direcionados aos pés de café para colher os grãos vermelhos e amarelos. Nada de colher grãos verdes que terão seu dia para amadurecer! Crianças, famílias, turistas estrangeiros, debutantes no assunto e até que já conheciam a experiência, todos se orgulhavam a cada grão vermelho que colocavam em seu balaio. Colhendo café ao meu lado tive o prazer de conhecer seguramente a mais emocionada senhora presente. Ela foi levada por seu filho e tinha em sua bagagem a experiência de quem já colhera muito café na roça, não poupando ensinamentos a quem estava ao seu lado.
O Cafezal está distribuído entre os duas laterais da parte dos fundos do Instituto, com árvores em dois estágios de desenvolvimento. A colheita foi no grupo à esquerda da entrada, onde os frutos já estavam no ponto de colheita. Após observar todo o café que restou para colher ao término da experiência, posso dizer que esse também foi um momento simbólico de colheita, embora altamente estimulante e educativo.
O café colhido individualmente foi então lotando alguns balaios pelos monitores, que o levaram para o próximo passo que ocorreu na despolpadeira. Naquele momento a máquina parecia uma obra de arte interativa na qual os grãos colocados perdiam sua polpa vermelha saindo claros e molhados frontalmente na máquina, podendo ser manuseados ou estimular a curiosidade de qualquer outro órgão do sentido.
E agora? O café precisa secar, pois apenas quando atingir 11% de umidade será ensacado e descansará por seis meses, segundo as informações recebidas no local. Todos agora acompanhamos o depósito e distribuição do café no terreiro suspenso, onde deve permanecer por poucos dias.
Paralelamente seguia o processo onde podia se acompanhar a torrefação dos grãos de café. Os grãos, é claro, eram grãos que já estavam prontos para esse procedimento, no ponto de moagem, que foi realizado por funcionários de uma empresa produtora de café do sul de Minas Gerais que participava ativamente do evento. Em um torrador de forma redonda foram colocados os grãos de café ainda claros, e a seguir a tampa do torrador foi fechada e travada. Acompanhamos o processo sobre o fogo do ininterrupto movimento de rotação do equipamento para que a torra se processasse por igual. Alguns participantes até já conseguiam sentir o agradável cheirinho do café quando alguma fumaça branca começou a aparecer. Os grãos de café torradinhos e quentes foram então colocados numa peneira, e esta primeiro sobre um ventilador, para retirar as peles secas. A agitação da peneira atraia a todos. Agora o aroma do café se fazia presente.
E na sequência … tomar café. O café era feito na forma habitual com coador e também em cafeteira de pressão, também conhecida como prensa francesa, que necessita moagem média/grossa dos grãos. Um cafezinho apenas? Não, mais explicações e mais cafezinhos eram oferecidos.
No meio de infinitas fotos para gravar a experiência mais que especial chegou a hora de partir e aguardar para tentar visitar a fugaz florada que virá.

O Cafezal do Instituto Biológico

O Cafezal do Instituto Biológico é o maior do gênero instalado em área urbana e com possibilidade de visitação, formando uma área verde atual de aproximadamente 10 mil m² no centro da capital paulista. No início, na década de 1950, foram plantados cerca de 2500 pés de café, sendo que o cafezal existente agora foi plantado na década de 1980. Existem ao redor de 1500 mil pés carregados de grãos vermelhos quando “no ponto para a colheita” cuja plantação não recebe nenhum produto químico. Sem fertilizantes ou agrotóxicos é então um café orgânico.
O café plantado no Cafezal é exclusivamente do tipo Arábica. Os considerados “melhores” cafés são desse tipo e possuem aroma e doçura intensos com muitas variações de acidez, corpo e sabor. O tipo Arábica tem 50% menos cafeína que o tipo Robusta e duas das suas principais variedades, Mundo Novo e Catuaí, esta de porte mais baixo que a primeira, são as variedades plantadas no Cafezal e que foram desenvolvidas pelo Instituto Agronômico (IAC-APTA).
Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) essas espécies são responsáveis por 85% das cultivares plantadas em todo o território nacional principalmente devido a sua longevidade e produtividade. Quanto à produção dos grãos, o Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo há 150 anos sendo consumido por 127 países no mundo.
A história do café se confunde com a história paulista e brasileira. O café entrou no Brasil em 1727 e se espalhou por vários estados, chegando ao Vale do Paraíba, São Paulo, em 1806. Em 1849, o Brasil já era o maior produtor mundial dessa cultura. No início do século XIX os grandes produtores de café, os chamados “Barões do Café”, exerciam grande influência político-econômica no Estado de São Paulo sendo também responsáveis pela grande transformação cultural e arquitetônica que a entrada de divisas podia estimular e foi para controlar uma praga em suas lavouras que teve início o projeto de um centro de estudos, o futuro Instituto Biológico.

De acordo com a pesquisadora Harumi Hojo:

Atualmente a maior finalidade do Cafezal é didática, histórica e cultural, destinando-se à população que deseja conhecer sua história e outras particularidades como a demonstração dos princípios das boas práticas agrícolas

O edifício e sua história

O Instituto Biológico pertence à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e está sediado num edifício considerado um bem cultural da cidade. Seu conjunto arquitetônico é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) como bem cultural de interesse histórico, arquitetônico e urbanístico desde 2002 e em 2014 pelo Conpresp (Conselho do Patrimônio da Cidade de São Paulo). O conjunto arquitetônico abrange área de 122 mil metros quadrados, incluindo onze edifícios e a sede, as ruas internas e os pés de café do Cafezal.

Inicialmente concebido como Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal, a construção do histórico edifício sede do Instituto Biológico teve início em 1928 e demorou 17 anos para ser concluído, sendo inaugurado em 25 de janeiro de 1945.
Em maio de 1924 o café era o principal produto de exportação do estado e apareceu uma terrível praga nos cafezais paulistas, a chamada broca. O então Secretário da Agricultura constituiu uma Comissão para o estudo da broca visando averiguar os estragos e identificar o parasita e foi assim que Arthur Neiva e colaboradores apresentaram propostas para seu combate. Em pouco tempo e com base técnico-científica as medidas de controle da praga tiveram resultado, mas mostraram ao governo paulista a impossibilidade de manter a riqueza agrícola devidamente protegida sem uma organização fitossanitária permanente. E foi assim que Arthur Neiva demonstrou junto à Assembleia Legislativa a importância da criação de um órgão que beneficiasse os agricultores, o que deu início posteriormente ao projeto da fundação do Instituto, sendo Arthur Neiva o seu primeiro diretor.

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo refere em sua página: “O Instituto Biológico localizava-se, inicialmente, em vários prédios adaptados e distantes uns dos outros (Rua Brigadeiro Luiz Antonio, Rua Marques de Itu, Rua Florisbela hoje Nestor Pestana, Rua Washington Luiz, Rua Pires do Rio e na Cidade de Santos), fato que provocava inconveniências operacionais. Em 1928 foi doada uma área de, aproximadamente 239.000 m², via permuta, para a construção do Instituto. Era uma área pouco valorizada, conhecida como “Campo do Barreto”, e que, mais tarde, uma parte foi cedida ao Parque do Ibirapuera. Era uma várzea com muitas aves e todo esse conjunto chamava-se “Invernada dos Bombeiros”, cortado pelo Córrego do Sapateiro. Hoje, essa área seria definida pela Av. Ibirapuera, Av. Brasil e Av. Cons. Rodrigues Alves”.
“No extenso complexo inicial do Instituto Biológico existiam locais para estudos de doenças das plantas e dos animais. Bovinos, suínos, aves etc., eram trazidos pelos criadores para que os pesquisadores do Instituto detectassem as doenças que os acometiam. Onde é hoje a Bienal, ficava o campo de futebol do Biológico Futebol Clube. No Governo Jânio da Silva Quadros, todo o terreno que ficava além da atual Avenida 23 de Maio, pertencente ao Instituto Biológico foi retirado do Instituto Biológico e cedido para a construção do Parque do Ibirapuera para a comemoração do IV Centenário de São Paulo. O prédio que abriga o MAC-USP (Museu de Arte Contemporânea), antigo DETRAN (Departamento de Trânsito), planejado pelo Arquiteto Oscar Niemeyer foi construído para ser a sede da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo”.
Detalhes históricos inviabilizaram a rápida construção do prédio sede do Instituto Biológico. No ano de 1932, quando São Paulo lutava contra as forças do governo de Getúlio Vargas e o Instituto estava em construção, teve seu prédio utilizado como acampamento dos soldados de tropas federais gaúchas. Em seguida, em 1937, temendo que o prédio fosse ocupado por Getúlio Vargas, Henrique da Rocha Lima, 2º Diretor do Instituto, e alguns de seus discípulos deslocaram-se rapidamente de seus laboratórios em casas alugadas, ajustaram-se aos meios que podiam e tomaram posse do prédio que seguia em construção. Naquele tempo ainda, em salas do 1º andar, senhoras da região ensinavam enfermagem àquelas senhoras que se dispunham a ir para os campos de combate a fim de atuarem com enfermeiras. A luta pelo término da construção do prédio atravessou também um surto de encefatite epizoótica agilizando a conclusão de alguns dos laboratórios do edifício.

O Instituto Biológico tem atualmente o maior número e diversidade de exames credenciados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para análises de pragas e doenças de plantas, sendo referência nacional para diagnóstico da ferrugem alaranjada da cana-de-açúcar e da sigatoka negra (doença da bananeira). O Instituto detém funções de ensino que incluem pós-graduação, pesquisa e centros e laboratórios voltado à tecnologia nas áreas de agronegócio de sanidade animal e vegetal e proteção ambiental, laboratório de Imunobiologia e de Diagnóstico Molecular. Possui ainda a única unidade laboratorial de referência em pragas urbanas no Brasil.

Detalhe que o Instituto é pioneiro na contratação de pesquisadores no recém-criado à época “Regime de contratação em Tempo Integral” (esse regime obriga os funcionários a trabalharem em tempo integral na instituição, não podendo exercer outras atividades que não aquelas de pesquisa em seus laboratórios).

O prédio sede

O imponente edifício sede do Instituto foi projetado pelo arquiteto Mário Whately destacando-se pelo estilo art-déco, uma concepção artística europeia que teve seu auge nas décadas de 1920-1930 que reflete os ideais de modernidade da época. Apresentando formas geométricas de maneira notável e monumental, o conjunto arquitetônico foi edificado sob influências nacionais e internacionais.
Na construção do prédio foram usados materiais requintados, nacionais e importados, como mármore “Lioz”, vindo de Portugal, que reveste as paredes e os pisos dos saguões de todos os andares, portas com batentes de Cabriúva (São Paulo). Os caixilhos das janelas, em ferro fundido, foram confeccionados pela Escola de Artes e Ofícios do Estado de São Paulo. O anfiteatro tem estrutura de madeira de peroba, os pisos dos corredores e de algumas salas são de ipê.
Alguns acabamentos já foram substituídos como pisos e louças de banheiros exceto no primeiro andar onde ainda persistem os pisos de ladrilhos de fabricação da Companhia Cerâmica Brasileira.
A fachada é toda revestida com argamassa de pós de pedras em tom róseo.
Outro detalhe do conjunto arquitetônico dá conta de que seus jardins foram desenhados pelo arquiteto e paisagista Arséne Puttemans, de origem Belga.
Os pés de café que compõe o Cafezal junto ao edifício sede do Instituto Biológico foram plantados na metade da década de 1950 com a finalidade de servir à pesquisa científica e, também, preservar a memória histórica da Instituição.

Detalhe que o Instituto Biológico completa 90 anos de atividade no presente ano de 2017.

Visitas

O “Sabor da Colheita” ocorre uma vez ao ano quando os grãos de café amadurecem porém o Cafezal do Instituto Biológico pode ser visitado em qualquer época do ano bastando para tal a antecedência no agendamento pelo telefone (11) 5087-1704,que informará as próximas datas de vista. A partir daí serão completadas as informações e confirmação por correio eletrônico.

O Instituto Biológico está localizado na Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, 1252, Vila Mariana, São Paulo.

Participar da colheita do café no pé num espaço especial é uma oportunidade única que acontece em São Paulo durante o evento do Instituto Biológico.

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